Temos que destacar as íntimas ligações do mercado da carne com os efeitos causados no mercado financeiro. Os maiores pecuaristas do Brasil, em sua maioria, não possuem atividade singular. Quando não estão ligados à área empresarial, têm na pecuária o suporte financeiro para atender às necessidades emergentes.
Mesmo o agricultor ligado a cereais possui no fundo de sua fazenda, em área muitas vezes não agricultável, um rebanho bovino objetivando uma receita extra, evitando-se assim ficar à mercê do mercado financeiro. Ou, ainda, realiza um confinamento estratégico de julho a outubro para que, com a receita, possa suportar as verbas necessárias para o custeio da safra de verão.
Muitas empresas ligadas a atividades financeiras prestadoras de serviços e demais grandes grupos do mercado possuem suas empresas de agropecuária, nas quais, da mesma forma, trabalham com o boi figurando como ativo financeiro para, a qualquer momento, suprir necessidades de caixa. Isto sem mencionarmos as pessoas que possuem atividades específicas na área da pecuária, dependendo dia-a-dia do seu rendimento para sobrevivência da atividade.
Vamos mencionar agora os efeitos diretos da atividade pecuária sentidos desde a estruturação do solo, compra de sementes, madeiras, materiais de construção, mão-de-obra, o aço como carro-chefe e também todo o efeito ligado desde o início da atividade pecuária até o desmanche da carne em frigorífico.
Empresas leiloeiras, caminhões para transporte e seus efeitos colaterais em todas as áreas que dependem desta prestação de serviço, a íntima ligação com a indústria, com a prestação de serviço dos postos de gasolina, restaurantes e, por último, com as empresas frigoríficas.
O que falar dos preços das terras, dos investimentos nelas, da distribuição de sementes nos campos e do investimento cascata desde a genética animal até a mão-de-obra não especializada que está sendo utilizada. Isto sem mencionarmos a ligação direta dos investimentos dos profissionais de ponta dos ramos veterinário e zootécnico, sem nos esquecermos dos estudos e investimentos dos grandes laboratórios preocupados com a sanidade do rebanho.
O que dizer ainda das empresas que estão ligadas à venda dos produtos veterinários, sais minerais, indústrias de vários ramos, funcionários, máquinas, e investimentos nos transportes fluviais ferroviários e rodoviários.
Poderia o leigo perguntar: com a vaca louca e o preço do boi caindo, não vai melhorar o preço para o consumidor? Com certeza, a curto prazo sim, mas como ficam os investimentos na atividade que regulam o efeito da oferta com a procura?
Matrizes que hoje são responsáveis pela procriação do rebanho fatalmente irão para o abate. Os investimentos em genética objetivando melhorar a carcaça também irão por água abaixo quando o mercado observar a barbárie cometida na atividade. O consumidor que no curto prazo será beneficiado, pagará o pato quando da retomada tardia dos investimentos.
Ou será que qualquer empresário investirá em terras sem obter retorno? Investirá em tecnologia sem ter no futuro uma lógica que viabilize seu investimento?
Este rebanho de aproximadamente 160 milhões de cabeças é o resultado de investimentos e retenção de matrizes por mais de 10 anos. Somente para relembrar: entre o nascimento de uma bezerra até se tornar novilha e, posteriormente, vaca, estando apta para procriação, e o oferecimento desta cria no mercado pronta para o abate, passam-se longínquos sete anos no rebanho zebu e seis anos, em média, no rebanho de cruzamento industrial, podendo ter o tempo reduzido para cinco anos.
Desta feita, os investimentos serão retardados e, na briga no ar, o boi acaba pagando o pato na terra. Posteriormente, estaremos abordando a questão do efeito colateral da retirada do boi do mercado na proporção atual, principalmente com relação a suinocultura, avicultura, rações, laboratórios, impostos e indústrias ligadas à atividade, ressaltando os efeitos que poderão advir.
- PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro em Londrina
[email protected] / www.afiplan.hpg.com.br

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