A instalação das fábricas de automóveis da Renault, Chrysler e Audi-Volkswagen, na Região Metropolitana de Curitiba, e a provável confirmação de novas fábricas que poderão vir a se instalar no Estado, marcam, indiscutivelmente, o início de um novo ciclo de desenvolvimento do Paraná. Ciclo este que não é só de desenvolvimento econômico, mas, sobretudo, social. Não restam dúvidas que, a partir desses investimentos, o Paraná terá todas as condições de se transformar na quarta economia nacional. Os investimentos anunciados devem gerar milhares de novos empregos, mudando radicalmente o perfil da força de trabalho local e impulsionando as receitas do Estado e também dos municípios que irão sediar esses empreendimentos.
Entretanto, Curitiba e os municípios da Região Metropolitana deverão experimentar uma nova explosão de crescimento geográfico nos próximos anos. Desde a década de 70, quando registrou uma taxa média de 5,35%, Curitiba vem liderando o crescimento demográfico entre as principais capitais brasileiras. O Censo de 1991 mostrou uma desaceleração no ritmo de crescimento em todas as capitais. Mas, mesmo com uma taxa de 2,11% (incluindo a região metropolitana este índice sobe para 2,91%), Curitiba ficou em segundo lugar entre as sete capitais das regiões sul e sudeste, atrás somente de Florianópolis (SC). Contudo, um levantamento do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico Social (Ipardes), divulgado em 1995, confirma que, nos anos 90, a capital paranaense voltou a registrar um novo salto de crescimento. O estudo mostrou que nos primeiros cinco anos da década de 90, Curitiba e Região Metropolitana receberam um contingente de 300 mil migrantes.
Enquanto metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro apresentam uma tendência para estabilizar o crescimento, o título de ‘‘Capital de Primeiro Mundo’’, está dando a Curitiba a liderança entre as capitais que mais crescem no país. A fama da capital paranaense percorre o país e o exterior, tornando-se muito atrativa para novas correntes migratórias.
O fenômeno que se verifica em Curitiba e na Região Metropolitana segue na contramão das tendências de urbanização mundial neste final de século. Em todo mundo está havendo um processo de ‘‘desmetropolização’’. Especialistas calculam que até o ano 2010, aproximadamente 50% das classes médias dos EUA e do Canadá trocarão as grandes metrópoles pela tranquilidade das cidades pequenas e médias e da zona rural. No Brasil, com exceção de algumas capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, estima-se que a urbanização crescente manterá a tendência de inchamento da periferia das grandes cidades. O professor Milton Santos, da Universidade de São Paulo (USP), prevê que os próximos anos, ‘‘quem sabe até os próximos decênios’’, marcarão ainda um fluxo crescente de migrantes para o que ele chama de ‘‘metrópoles regionais’’.

O crescimento
desordenado ou
induzido compromete
a qualidade de vida


A previsão do professor Milton Santos serve de alerta para Curitiba e Região Metropolitana. Segundo ele, ao contrário do que acontece hoje com São Paulo e Rio de Janeiro, e nas grandes cidades do chamado Primeiro Mundo, ‘‘as metrópoles regionais brasileiras tendem a crescer relativamente mais que as próprias metrópoles do sudeste’’. As metrópoles regionais, afirma, ‘‘mudaram de qualidade nestes últimos anos, primeiro porque se transformaram em metrópoles com conteúdo nacional, capazes de manter relações nacionais e, segundo, porque as respectivas regiões metropolitanas passaram a constituir áreas onde se diversificam e avolumam as relações urbanas, com aumento da divisão do trabalho que conduz ao apressamento e aprofundamento de uma série de processos econômicos e sociais’’.
Este raciocínio é reforçado porque as metrópoles regionais concentram boa parte da estrutura produtiva regional. No caso de Curitiba, as maiores empresas paranaenses em arrecadação de ICMS estão localizadas dentro do limite geográfico da cidade, respondendo por mais da metade do imposto recolhido pela Receita Estadual. Se somar a arrecadação de Curitiba com a de algumas cidades da Região Metropolitana, como Araucária e São José dos Pinhais, por exemplo, vê-se que a concentração tributária se eleva a quase dois terços do montante estadual, revelando uma absurda centralização econômica.
Não se trata de adotar um comportamento xenófobo, incentivando a discriminação dos migrantes, o que seria uma traição à própria história da capital paranaense. Afinal, Curitiba foi construída por migrantes de diferentes origens e tem na diversidade étnica um dos seus principais valores. É realista imaginar que a cidade - e também os municípios metropolitanos - continuará crescendo a um ritmo acelerado e que as demandas sociais tendem a aumentar na mesma proporção. Mas precisamos ter consciência de que o crescimento desordenado ou induzido compromete a qualidade de vida. Compete, portanto, ao poder público antecipar-se aos fatos, ocupando-se do planejamento e do provimento da infra-estrutura básica, dimensionando as necessidades futuras e a capacidade de supri-las.
Hoje, a concentração das atividades econômicas em Curitiba e alguns municípios da Região Metropolitana tornou-se um fator de inquietação para quem se preocupa com o futuro dessas cidades. Esta concentração pode ser boa para Curitiba e região, mas é um fator determinante do crescimento populacional. Se pensarmos no desenvolvimento do Paraná como um todo, seria extremamente saudável a desconcentração industrial. A instalação de novos pólos industriais no interior do Estado pode ser paradoxal, mas interessa muito mais a Curitiba do que a abertura de novas indústrias na Região Metropolitana. Por uma razão óbvia: a interiorização do desenvolvimento industrial vai gerar empregos nos municípios, dinamizando a economia e reduzindo o fluxo migratório.

mockup