Não foram apenas os pefelistas que sugeriram uma renúncia coletiva dos candidatos como solução para a briga na base governista pelas presidências da Câmara e do Senado. Por incrível que pareça, há um dedo tucano na proposta que prejudicaria principalmente o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) como candidato à presidência da Câmara. A informação leva imediatamente a uma pergunta lógica: por que um tucano atuaria para tentar prejudicar justamente a possibilidade de vitória de outro tucano? Porque o PSDB não é diferente do PT ou do PFL. Internamente, o partido do presidente Fernando Henrique Cardoso vive também o mesmo tipo de luta fratricida entre tendências.
O tempo e a vida infelizmente foram afastando da direção do partido vários dos grandes ícones tucanos que fundaram o PSDB. O governador de São Paulo, Mário Covas, que expõe publicamente de forma heróica a sua luta inglória contra o câncer, é um dos poucos remanescentes. O ex-deputado Franco Montoro morreu, assim como o ex-ministro das Comunicações Sérgio Motta. O ex-deputado Euclides Scalco está longe, na presidência da Itaipu. Seu velho companheiro, o ex-governador do Paraná José Richa também está fora: o PSDB do Paraná agora é de um tucano novo, o senador Alvaro Dias.
Os que permaneceram dividiram-se em dois grupos. De um lado, está o grupo do governador do Ceará, Tasso Jereissati. Ligado a esse grupo, está o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga. No outro grupo se encontra o ministro da Saúde, José Serra. Aí estão também o líder do PSDB no Senado, Sérgio Machado e o líder na Câmara, Aécio Neves. Está em jogo aí a sucessão presidencial, sem dúvida. Tasso e Serra disputam a indicação do partido para suceder Fernando Henrique. Mas está em jogo também o comando do PSDB.
O grupo de Serra avalia que o PSDB, nesses quatro anos e meio de Fernando Henrique, teve bônus mas também vários ônus por encabeçar o governo. O fato de ter o primeiro posto na administração federal implicava para o partido abrir mão de outras parcelas de poder em favor dos parceiros da base. Agora, avaliam, é hora de abandonar essa timidez para que o PSDB não acabe engolido no jogo sucessório. E a candidatura de Aécio Neves à presidência da Câmara é parte desse projeto.
O problema, porém, é que essa estratégia pode gerar dores de cabeça para o presidente na administração de seu governo. Esse PSDB mais ‘‘saidinho’’ provoca reações dos parceiros, principalmente do PFL. Na briga do presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), com o presidente do PMDB, senador Jader Barbalho (PA), esse grupo percebeu que a brecha que tinha para vencer a disputa na Câmara era aliar-se ao PMDB. No acordo para sustentar as chances de Jader Barbalho no Senado, Aécio Neves se tornou favorito numa disputa em que o líder do PFL na Câmara, Inocêncio de Oliveira, era no início praticamente imbatível.
Aí, o PFL pede socorro ao presidente para reverter a situação. Sustenta que essa desnecessária disputa entre os partidos da base quebra de forma perigosa a unidade do governo. E consegue o apoio da outra parcela tucana, que não deseja ver o crescimento interno dos seus adversários. É claro que nenhum tucano dirá publicamente que não vota em Aécio Neves. Mas existem senadores, como Lúcio Alcântara (CE), ligado a Tasso Jereissati, que não escondem que não pretendem votar em Jader Barbalho no Senado.
Alguns gabinetes tucanos no Congresso ostentam orgulhosos uma foto feita pela revista Veja, em que os fundadores do PSDB aparecem de mãos dadas no gramado em frente ao Congresso Nacional. Foi-se o tempo das mãos dadas ...
- RUDOLFO LAGO é jornalista em Brasília
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