Padre Gregório Westrupp era um santo. Tinha a altivez ascética de Pio XII e a simplicidade generosa de João XXIII. Na única vez em que estive com Pio XII no Vaticano, impressionou-me sua frieza. Por mais que ele se esforçasse para ser carinhoso comigo, havia uma distância intransponível que me feria profundamente - e Pacelli era italiano.
Aquela frieza encontrei depois em Luis Carlos Prestes, em conversas no Rio de Janeiro. Curiosamente, Prestes era aliado à obediência a Moscou como Pio XII à Igreja. E, novamente, em Padre Gregório, um polonês que não se interessava por política, ou qualquer outro tema que desviasse a atenção de seu germânico objetivo único: a obra social, o Orfanato de São Judas Tadeu.
Também sua relação com Deus sempre me pareceu duramente abstrata, mas deu para detectar emoções ocultas por trás de seu comportamento. Como quando me mostrou, orgulhoso mas impassível, a carta de um órfão que conseguira recolocar junto a parentes do interior, em que o rapaz pedia para retornar ao orfanato, alegando que ali era o lar que amava.
Certa vez, Padre Gregório convidou-me par almoçar. À mesa com os meninos e, no prato, pedacinhos de carne e batata cozidos, o único alimento que conseguira. Comi tão constrangido que, depois, não conseguia digerir.
Dois mistérios me atraíam para Padre Gregório: a religiosidade, de que há muito me afastara, e seus poderes premonitórios. Ele ainda era um jovem padreco do interior quando sonhou com um amigo imerso numa banheira de sangue. Ao acordar, trouxeram-lhe a notícia do assassinato do amigo. Descobriu, assim, seus poderes videntes. Ganhando fama, todos o consultavam e faziam doações para o orfanato.
De outra feita, estávamos no carro em que ele ia benzer a casa de um preso político que tivera a família e a sua própria personalidade implodidos pela fúria dos acontecimentos. Ele rezava, eu olhava pela janela, perguntando-me como o ex-preso receberia o ato religioso.
Aí, Padre Gregório silenciou. O silêncio, com ele, já era um diálogo. Virou aquele narigão, num rosto rubro pela invasão arterial, os olhos frios por trás dos óculos, e quis me fazer um elogio: ‘‘Você tem um defeito. É um homem que não sabe mentir’’.
Levei a conversa para o que me interessava: ‘‘Deve ser uma experiência muita rica este poder de prever as coisas’’. Ele olhou para a frente, como se falasse sozinho: ‘‘Ver é um processo muito doloroso. Deus dá a cada um a faculdade de ver, de acordo com a capacidade de suportar a dor correspondente’’.
Ocorreu-me, então, quão mais leve me teria sido a vida, se eu também não tivesse visto umas tantas coisas, e retruquei: ‘‘Se Deus criou tudo isso, por que criou tanta desgraça e dor?’’. E ele: ‘‘Não conhecemos os desígnios de Deus e, seguramente, há objetivos que só se alcançarão através da dor’’.
Com isso chegamos, e a liturgia trouxe muito conforto ao ex-preso.
- PAOLO MARANCA é pintor em São Paulo

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