Os direitos oneraram a mulher - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de março de 1999
Walmor Maccarini 
Sempre que acontece o Dia da Mulher as mulheres que lideram entidades ou movimentos que as congreguem lembram-se que é a oportunidade de proclamar os seus direitos. O homem não entende bem, porque sempre imaginou que também tem direito a direitos. Para começar, não o contemplaram com o Dia do Homem.
Pelo tom do discurso, seria o homem o detentor dos direitos supostamente subtraídos da mulher. Mas ele não pode subtrair o que não detém. Ele não é o proprietário nem o fornecedor dos direitos da mulher.
Por que a mulher crê que agora usufrui de direitos que antes não lhe eram dados? Teria o varão ficado mais fraco perante a mulher ou foi ela que ficou mais forte? Então, se hoje a mulher conquistou os seus direitos, poderia tê-los conquistado no passado, e se tal não aconteceu, com toda certeza não foi culpa do homem. Ela é que talvez não houvesse desejado usufruir de tais direitos, ou não os percebia. Mudou agora a mulher ou mudou o homem?
Mudou a mulher!
Não foi o homem que lhe sonegou direitos, foi a mulher que não desejou lutar por eles. Ao menos até as décadas mais recentes. O homem sempre esteve disponível, ante a mulher, para assistir ao uso dos direitos que ela detinha e lhe eram inerentes. Por que haveria de lutar pelos direitos da mulher se, nisto, nem ela parecia interessada? Se ele não era a favor, não quer dizer que era contra. Era do livre arbítrio da mulher outorgar-se ou subtrair-se direitos. Se o homem, ao longo da história, muitas vezes disse não, ela poderia ter dito sim. Se ele foi prepotente, isto não significava que a mulher era frágil e o homem lhe negasse direitos. Talvez ele tenha sido, como classe, apenas mais organizado que ela. E certamente lhe convinha. Porque o homem sempre foi temente à mulher, sempre se soube emocionalmente submisso, mas disto a mulher nunca teve plena consciência. Os freios do homem seriam apenas formas de defesa. Era uma política que vinha dando certo, então por que mexer em time que estava ganhando?... Se a mulher houvesse desejado dar um basta o teria conseguido. O homem sempre teve consciência de que cedo ou tarde isto iria acontecer. Não foi, portanto, o homem que mudou. Foi a mulher que resolveu, nestes tempos mais recentes, ampliar um poder que já detinha. Ele continua o submisso de sempre, ela a dominadora. Ele tem consciência desse domínio, ela não tem da dominação, por isso veio se colocando, historicamente, como vítima do homem. A verdade é que com mansidão de pomba e esperteza de serpente ela sempre o dominou.
Consciente ou não, a diferença é que antes a mulher detinha o poder privado, agora detém o poder público... Agora os direitos são notórios. Em outras palavras, ela sempre exerceu supremacia sobre o homem, e o homem sabia disto - como ainda sabe hoje - mas ela não tinha consciência desse poder - como ainda não tem hoje. E por não ter, luta por direitos... Direitos que resultaram em trabalhar mais, além de continuar fazendo o que sempre fez, como a função (divina função) de gerar, de amamentar, de derramar amor sobre os filhos, de agradar o companheiro, e não porque os filhos e o homem lhe tenham exigido, mas porque um dom natural da mulher, outorgado por bênção e graça.
Agora, pelos direitos tornados públicos (eis que eles já lhe eram inerentes), a mulher, além de exercer aqueles atributos, vai ao escritório, dirige empresa, pilota automóvel e caminhão, sai a campo para garimpar o dinheiro, administra o saldo devedor no banco, tem pleno poder de decisão sobre os negócios da casa, e influi muito, com sua sutileza, nos negócios do marido, adquire stress, fuma muito e por isso adquiriu hálito masculino, já sofre de enfarto, tudo conforme os iguais direitos do homem... E depois de seu dia estafante volta para casa para saber como foi o dia dos filhos na escola e no trabalho, cuidar da roupa que irão vestir, conferir o que fez a empregada e dar-lhe as novas ordens-do-dia (porque empregada só ouve e respeita a patroa, homem só palpita e não apita nada), fazer ou administrar o jantar e às vezes ainda ir ao mercado, dar todas as atenções exigidas pelos filhos, ouvir a filha que brigou com o namorado, consolar o filho que levou o fora (porque a mãe é mulher e só ela sabe dessas coisas; pai não compreende, só piora tudo), enfim, as tarefas que ela sempre exerceu desde os tempos de outrora, quando ainda não conhecia o seus direitos de trabalhar ainda mais e preocupar-se com coisas que antes só eram atribuição do chefe da família.
Agora, para o homem, ficou mais fácil. Com os direitos adquiridos, a mulher passou a fazer mais, a pensar mais. Por livre e espontânea vontade. Ele só cuida de ganhar dinheiro, como sempre fez, e nem precisa do esforço de antigamente porque agora a mulher também traz o dinheiro dela. Com o direito de ganhar, a mulher também assumiu o direito de ajudar a pagar a conta.
As mulheres que lutaram pelos modernos direitos da mulher, com toda certeza eram inimigas da classe e muito amigas do homem... Este, a tudo assistiu, consentido. E não levantará bandeiras contra, nem queimará em fogueira pública as suas cuecas, como fez a mulher com seus sutiãs.
...Desde que a mulher não perca a doçura e a feminilidade, e o direito, outorgado por dádiva divina, de continuar mulher. Ou o homem entrará em exasperação total e cometerá auto-extermínio em massa. Porque sem ela, ou sem ela feminina, de que adiantará ser homem?
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


