Os dinossauros
estão de volta
Arlete Salvador
Foi preciso quebrar boa parte dos países da Ásia e da América Latina – Brasil incluído – e também a Rússia para que alguns dos dogmas econômicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird) fossem revistos. E, quem diria, os revisores de todo o receituário ditado pelas duas organizações foram justamente seus técnicos e dirigentes mais renomados. De vilões da história, eles passaram a mocinhos preocupados com o bem-estar dos países emergentes, com o desequilíbrio social e a pobreza.
Qualquer pessoa que, há cinco anos, dissesse o que dizem hoje os gênios do FMI seria chamada de dinossauro, esquerdista atrasado, fracassomaníaco e por aí vai. Era motivo de gozação ser contra as privatizações sem controle, a abertura econômica desenfreada, a entrada sem restrições do capital especulativo internacional. O carro importado na garagem e o uísque 12 anos no bar atestavam o sucesso da inserção dos países emergentes ao Primeiro Mundo. Sinal de modernidade, competitividade e orgulho nacionais.
Levando-se em conta o que disseram os gênios do FMI e do Banco Mundial nesta semana, os dinossauros já podem voltar à terra dos bem-pensantes. Os números do próprio Bird comprovam que eles tinham razão. O modelo econômico imposto aos países emergentes nos últimos anos levou ao empobrecimento da população e garantiu que os países ricos ficassem mais ricos.
As conclusões do banco são um atestado de burrice dado publicamente aos países que seguiram seus conselhos. Com a maior elegância, diplomacia e cara-de-pau do mundo. Não se ouviu em Washington, onde se reuniram o FMI e o Bird, uma palavra de admissão de culpa e de incompetência pelo desastre provocado nesses países. Nada disso.
Os números que atestam a falência do modelo foram mostrados como se fossem fatos naturais da vida, acidentes de percurso. Não é com eles. Visto pela ótica de seus dirigentes, o problema parece ser desses malditos países emergentes, que não dão certo nunca e vivem pedindo dinheiro emprestado. Está na hora de eles começarem a cuidar mais do social, reduzir as desigualdades, controlar os capitais voláteis.
Provavelmente, não houve mesmo nem culpa nem incompetência por parte do FMI e do Banco Mundial. Eles não erraram. Os resultados apresentados pelos dois organismos aos seus sócios – os países desenvolvidos – foram altamente satisfatórios. Cumpriram à risca o papel para o qual foram criados depois da Segunda Guerra Mundial, de garantir alguma estabilidade econômica internacional. O tipo de estabilidade, é claro, que garantisse a supremacia dos que já estavam no bloco superior sobre os pobretões do Planeta.
Pode-se concluir, então, que não houve acaso na derrocada dos países emergentes. O modelo econômico proposto pelo FMI levaria, como levou, ao aprofundamento das desigualdades entre países ricos e pobres. Quem acreditou no contrário assinou o atestado distribuído nesta semana pelos dois organismos econômicos mais poderosos do mundo.
E os dinossauros, esses esfregam as mãos: ‘‘Eu não disse?’’
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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