Os deuses voltaram - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de janeiro de 1999
Arlete Salvador 
A estabilidade econômica, além de permitir o planejamento a longo prazo, tinha trazido uma vantagem adicional: durante um bom tempo, ficamos livres dos economistas. Eles têm a sua importância e o seu papel, de orientar, fazer contas, sugerir investimentos e cortes no orçamento doméstico. São quase iguais aos médicos, que indicam remédios, tratamentos e dietas para as doenças mais comuns. Se se comportassem com a mesma responsabilidade com que se espera dos médicos, talvez tivessem um papel maior ainda.
O que se vê por aí é um monte de palpiteiros, cada um dizendo uma coisa, brigando entre si para saber quem tem razão sobre o tamanho da recessão futura e a altura da inflação. Não falam para gente que colocou no banco, com confiança até ingênua, os poucos reais economizados a duras penas nos últimos meses. Nessas economias, estão guardados sonhos de uma viagem, a faculdade dos filhos, a casa própria e a aposentadoria. É dinheiro, é cifra, mas é também resultado de muito trabalho e empenho pessoal.
Ignorar que atrás das cifras está um cidadão é um pecado recorrente dos chamados economistas e técnicos do governo. Baixar um imposto significa aumentar alguns zeros na coluna das receitas para esse grupo de iluminados. Para quem paga, significa sonhos, escola e aposentadoria a menos. Mais hipócrita ainda são os conselhos dos chamados analistas internacionais. Instalados em escritórios de Nova York, dão-se ao luxo de receitar cortes brutais na renda do brasileiro e a venda de ativos dos quais não são donos. Nas suas contas, tudo dá certo no final.
Pouco importa se, para o País chegar lá, muita gente tenha que morrer no meio do caminho. Números. Contas. Todos batem. Os cálculos viram gráficos e curvas. A equação perfeita e equilibrada do futuro. Nós os ouvimos na esperança de que possam nos dizer quando esse terremoto vai parar para retomarmos nossos projetos e nossas vidas. Mas tudo o que têm para dizer são um monte de cifras e mais cifras, interligadas entre si. Uma dependendo da outra.
Há poucos dias, o ex-presidente do Banco Central, Pérsio Arida, escreveu um artigo no jornal O Estado de S.Paulo no qual afirmava, resumidamente, eu não disse?. Referia-se à necessidade de uma desvalorização da moeda. O leal Pérsio alegou que se manteve silencioso sobre suas divergências com a equipe que continuou no governo por não querer atrapalhar o Plano Real. Muito digno, se ele não fosse dono de um banco, orientasse investimentos de outras pessoas, às quais, obviamente falou de suas idéias. O grande público - os idiotas que acreditaram no plano - não recebeu o mesmo alerta de alguém a quem deu salário e prestígio. Bem se vê a quem servem economistas como ele.
Esse é apenas um caso. Há previsões e projeções para todos os gostos, dos otimistas aos mais catastróficos. Todos com a mesma margem de confiança de uma previsão de cartomante.
Os deuses estão de volta e teremos de aturá-los - e a seus egos.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


