''Os deuses'' também pecam - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de abril de 1999
Gaudêncio Torquato 
Quem sai na chuva, diz o ditado, é pra se molhar. Quem tem vida pública pode, a qualquer hora, ver desvendada uma janelinha de sua privacidade. Por isso, não tem provocado tanta surpresa o caso massificado pela mídia, de Maluf com Silvana, uma senhora, hoje casada, que contou em detalhes sua vida íntima com o ex-prefeito, ressaltando principalmente a tática usada por ele para conquistar uma menina de apenas 14 anos. O risível da história é que Maluf, no famoso debate com Mário Covas, por ocasião das eleições do ano passado, teria levado um dossiê para, a qualquer momento, caso fosse agredido, divulgá-lo como bomba. O dossiê abriria a intimidade de Covas, em suposta conversa telefônica com uma adolescente. O feitiço virou contra o feiticeiro.
O episódio Maluf-Silvana vem, mais uma vez, mostrar os exíguos limites entre o público e o privado. A hipótese é a de que um cidadão, a partir do momento em que assume funções públicas, já não tem domínio sobre sua vida. Deve prestar contas à coletividade. Se episódios da intimidade ferem a honra e dignidade devem, por isso mesmo, ser apresentados à opinião pública. Até aí tudo bem. Ocorre que nem sempre as coisas são contadas para servir ao bem comum. Frequentemente, são usadas por adversários para destruir a imagem dos envolvidos, aumentar a audiência e tiragem dos meios de comunicação e satisfazer a curiosidade lúdica de ouvintes e leitores, que se deleitam com fatos pitorescos da vida prazerosa de gente famosa.
O privado invade o espaço público nas questões de sexo, idade, doença, performances esportivas, relações conjugais, vida familiar, animais de estimação, comportamentos exóticos. Clinton - Hillary - Mônica Lewinsky - Paula Jones - o promotor Kenneth Starr - a filha Chelsea - o cachorro de estimação abriram, no último ano, um imenso corredor de intimidade, que rendeu milhões de dólares à mídia e aos coadjuvantes dessa fabulosa teia de interesses. Collor foi massacrado por abusar do marketing, com a performance de esportista, antes de deixar o poder. As histórias de Ademar e dr. Rui (a amante), Lula e Mirian Cordeiro, Jango e Maria Tereza apimentaram a crônica política. No que toca a Fernando Henrique, até hoje um véu de mistério envolve um suposto caso com a jornalista Miriam Dutra, de quem teria um filho, segundo a revista Veja. Mas a intimidade presidencial ganha espaço com a intermitente dor na coluna e certo afastamento de dona Ruth. Covas, agora, é radiografado sob a ótica da quimioterapia, cabelos caindo e palidez, mesmo que exiba bom humor e perfeito domínio do poder.
Em De Gaulle, o toque humano explorado pela mídia estava na idade avançada. Em Miterrand, a filha fora do casamento. Em Kennedy, o pitoresco girava em torno de farras com mulheres, além da paixão exacerbada de Marilyn Monroe. Era exaltado como ícone de uma América, jovem e talentosa. Jacqueline, um pedestal de glamour. Em Gerald Ford, o engraçado era a mania de cair, pois tinha problemas com os joelhos. Quem não se lembra do ex-primeiro ministro canadense, Pierre Trudeau, cuja mulher, Margaret, vivia dizendo: Quero ser mais que uma rosa na lapela de meu marido? Imelda Marcos é famosa pelos 500 sapatos e uma vidinha fútil. Até o velho Fidel Castro não se livra das escapadinhas, dos amores escondidos e das cantadas recorrentes em atrizes brasileiras, principalmente Lucélia Santos.
E esse cenário se completa com os filhos, os irmãos, os animais de estimação, gatos, cachorros, cavalos, pôneis. Conta-se que Giscard dEstaing, ex-presidente francês, por ocasião de uma entrevista filmada junto de uma janela aberta para o parque do Eliseu, teria perguntado: Alguém viu se os meus cães passaram? A imagem dos políticos, cosmetizada pela descrição de seus feitos íntimos, adensa qualidades e defeitos. O mito senta no banco dos mortais, desvendando-se seu interior. No Olimpo da cultura de massas, assumem uma identidade divinizada. Quando descem à vala comum, com dramas, angústias, pecados e emoções, igualam-se a todos, provocando a catarse da projeção e identificação de leitores, ouvintes e telespectadores. Pecados existem abaixo e acima da Linha do Equador.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos).
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