Os deuses da política - Fernando José Dias da Silva
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sexta-feira, 24 de abril de 1998
Fernando José Dias da Silva 
São as peças que a vida prega. Antônio Carlos Magalhães ficou órfão do seu próprio filho. A morte de Luís Eduardo interrompe bruscamente o futuro do clã Magalhães e bagunça, pelo menos por um tempo, o quadro político nacional. O mesmo pode-se dizer da morte de Sérgio Motta que deixa órfãos os tucanos.
É interessante, é quase que aterrador, mas a morte de um neutraliza a morte do outro. Obviamente a vida política sai diminuída, mas o pavor dos tucanos no velório de Sérgio Motta era o espaço que Antônio Carlos Magalhães poderia reivindicar, em nome do PFL, junto a Fernando Henrique. Na avaliação de muita gente que esteve no velório de Serjão seria difícil o presidente negar qualquer coisa a ACM, principalmente agora, à beira da eleição.
Pois não é que é velha e tão temida ceifadora ataca novamente? Morre Luís Eduardo e um pouco do plano do PFL deixa de existir. O objetivo era preparar o deputado baiano para ser candidato à Presidência em 2002, depois do segundo mandato de Fernando Henrique. Agora esse que era o sonho de Antônio Carlos Magalhães e também de um setor expressivo do PFL se desmorona. E o principal objetivo dos pefelistas para disputar espaço com os tucanos acaba. Eles não têm, pelo menos por enquanto, outro candidato à Presidência. Talvez até possam ficar aliados ao PSDB por um tempo, depois do acordo para a reeleição de Fernando Henrique.
Os deuses da política às vezes são perversos. Quando tudo parece que vai caminhando nos seus trilhos o acaso faz uma surpresa arrasadora. Entrou em ação o doutor Sobrenatural de Almeida.
A política brasileira sempre foi mais para vaudeville, para opereta, quando não caiu no escracho desbragado da chanchada. Mas de vez em quando ela também adquire tons sombrios, dramáticos, wagnerianos. Foi o que aconteceu com o suicídio de Getúlio Vargas, com a morte de Tancredo Neves no mesmo dia de Luís Eduardo há 13 anos e agora com essas duas mortes, uma seguida a outra.
Internamente o presidente Fernando Henrique agiu de forma acertada ao voltar para o Brasil para o enterro de Luís Eduardo. Mostrou que está no comando da situação, que ele continua com as rédeas na mão comandando a política brasileira. Dizem que a decisão de abandonar a Espanha no meio da visita oficial não foi bem interpretada nos meios diplomáticos daquele país. Paciência. O presidente não pode passar a imagem de que a situação está fora de controle, aqui na sua horta.
Isso não aconteceria, Fernando Henrique não precisaria ter voltado da Espanha, se houvesse um sistema partidário decente, se as instituições funcionassem baseadas em programas e projetos. Não em homens. Em determinadas figuras que conhecem os segredos e ficam mais importantes do que deveriam ser.
O governo e muito menos a democracia não vão acabar. A vida continua. Mas essas duas figuras - Serjão e Luís Eduardo - eram sem dúvida as principais da estrutura de poder do governo. Eram importantes porque eram os operadores. Eram aqueles que saiam a campo para cumprir tarefas, fazer acordos que não se anotam no caderninho. Por isso a situação se complica sem eles. Ninguém sabe o que prometeram e para quem prometeram para manter a base de sustentação do Palácio do Planalto. Se as coisas não fossem assim seria mais fácil. Se os partidos existissem haveria pelo menos uma dúzia de quadros em cada um para ocupar o papel de articulação política.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


