Os desafios de ensinar - Elvira Lopes Nascimento
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de outubro de 1998
Elvira Lopes Nascimento 
Em meio a tantas crises (crise das Bolsas, crises institucionais etc.) nós, professores, temos de enfrentar em nosso dia-a-dia a mais difícil de todas as crises: a falta de sentido para os estudos por parte de nossos alunos. A pergunta estudar para quê? nunca esteve tão forte na cabeça de nossos alunos como agora. Chega a provocar risos na sala de aula a velha resposta: estudar para ser alguém na vida, diante da constatação de milhares de pessoas formadas, mas desempregadas ou recebendo salários ínfimos.
Para esses alunos chegamos ao fim do mito: a ascensão social através da escola! O que estamos vendo são nossos alunos com diploma na mão e desempregados. Está chegando ao fim o projeto pedagógico de muitos professores: alunos não viam sentido no que estavam fazendo, mas tinham a perspectiva de uma recompensa que viria depois.
Hoje, os alunos continuam a não ver sentido nas práticas escolares e não mais depositam suas esperanças em um futuro promissor via diploma. A relação escola e mercado de trabalho que a sustentava começa a cair por terra. Tudo isso provoca um grande estrago em nossas escolas, pois aumenta a rebeldia de nosso alunos e agrava o problema disciplinar.
Envolvidos por essa crise, convivemos nós, professores, com duas outras crises: de um lado as condições de trabalho: salários baixos, salas superlotadas, falta de tempo para o preparo de atividades, extenuantes jornadas de trabalho (de até 60 horas semanais) etc.
De outro lado, a crise dos nossos próprios limites que é alimentada por um mercado que exacerba o consumo, cujo alvo são nossas crianças e adolescentes transformados em chamariz de propaganda lançada pela mídia (é preciso satisfazer os desejos das crianças, elas precisam desfrutar das visitas ao shopping, dos shows de artistas mirins etc.).
E os pais, impelidos pela queda progressiva dos salários massacrados pelos meios de comunicação, acabam caindo no círculo vicioso: desejo de consumo - busca de recursos - mais trabalho - menos tempo de convivência com os filhos - mais culpa - menos limites aos filhos...
Tudo isso se reflete na escola. E o professor fica com a sensação de não-poder diante do aluno que aprende pouco ou não aprende, ou de impotência social para alterar as condições de origem do aluno pobre.
O imenso desafio é acreditar que é possível transformar essa realidade. De que forma? Resgatando o professor como sujeito de transformação. Acreditando na possibilidade de mudança de si próprio, do outro e da realidade que o cerca. Não permitindo a destruição do professor, de sua auto-estima, de sua dignidade, vítima que é também é de uma sociedade desumana e excludente.
O professor é um sujeito de transformação. O poder não está apenas nos governos, na mídia, está no dia-a-dia de nossas vidas. Nós, professores, temos um poder nas mãos, limitado, mas real: somos mediadores do sistema, e ele não funciona sem a mediação concreta de seus agentes. Podemos ter um perfil revolucionário criando uma rede ética de resistência a esse processo social que está quebrando as esperanças de nossos jovens.
E nós, professores, lidamos com a esperança: ela tem de continuar a ser essência de nosso cotidiano profissional. Só assim não fugiremos do compromisso com a efetiva mudança da realidade.
Continuaremos, sim, a ser sujeitos de transformação.
- ELVIRA LOPES NASCIMENTO é professora universitária em Londrina


