Os desafios da metrópole - Jorge Samek
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de outubro de 1997
Jorge Samek 
O urbanista francês Paul Virilio, falando sobre o futuro da vida nas cidades, diz que as metrópoles modernas estão deixando de ser um lugar de socialização para se tornar um lugar de dessocializalção. Virilio enumera três grandes desafios a serem enfrentados pelos planejadores urbanos nesta virada de século: a dificuldade de garantir a geração de novos empregos, por causa da crise estrutural gerada pela falta de controle do desenvolvimento técnico e pela revolução informacional, a impossibilidade de melhorar os movimentos de circulação, em virtude da explosão demográfica, e a incapacidade de garantir a paz social e a democracia.
Estes problemas já se fazem presentes em Curitiba, acrescidos de outros não menos impactantes, como falta de moradia para atender a população de baixa renda e a precarização das condições de vida na periferia e nos municípios metropolitanos, devido a ausência de infra-estrutura e de ligação dos domicílios à rede de esgoto. Aliás, a questão do saneamento básico é um assunto que figura no topo das preocupações sociais dos curitibanos. Uma cidade que se diz ambientalmente correta não pode ter a maior parte do esgoto sendo jogado no meio ambiente, poluindo e degradando nossos rios.
O desemprego atinge 151 mil pessoas em Curitiba e Região Metropolitana, de acordo com a última pesquisa de emprego e desemprego (PED), divulgada pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social - Ipardes, relativa ao último mês de junho. O índice de desemprego já alcança 14,6% da população economicamente ativa. As pesquisas revelam que a taxa de desemprego está crescendo, em média, cerca de 20% ao ano. Em 95, o índice médio mensal ficou em 11%. Em 96, a média mensal de desempregados subiu para 13,5% da população economicamente ativa. Este ano, seguramente deve ultrapassar 15%.
A série de debates sobre a revisão do Plano Diretor de Curitiba, realizada pela Câmara Municipal, produziu em consenso entre os urbanistas e planejadores urbanos: é preciso repensar o planejamento da cidade e acelerar a integração com a Região Metropolitana. Mas produziu também muitas indagações. O sistema viário de Curitiba, por exemplo é excessivamente centralizado. Os movimentos de circulação passam obrigatoriamente pelo centro da cidade. Os frequentes congestionamentos de trânsito e a imprudência de motoristas e pedestres são reflexos desta crise que atinge o nosso festejado modelo de planejamento.
O fenômeno da metropolização acelerada traz à tona outro assunto pertinente que deve ser repensado urgentemente: a integração do transporte coletivo de Curitiba com a Região Metropolitana. A integração que esperávamos era com a Rede Integrada de Transporte (RIT), utilizando-se os terminais de ponta para fazer a ligação entre as linhas. Mas o que estamos vendo, com poucas exceções, é a substituição de ônibus metropolitanos por ônibus Ligeirinhos, o que dá na mesma coisa.
Outra indagação pertinente é sobre o futuro do nosso sistema de transporte coletivo: qual a alternativa de transporte para o terceiro milênio? Continuaremos insistindo nos ônibus biarticulados, ou vamos optar pelo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), como pretende a atual administração? O metrô seria uma solução? E os pedestres, como é que ficam nessa história? Até que ponto são válidas atitudes como esta de reabrir para automóveis uma rua central, antes destinada para pedestres, como a Rua do Rosário? São questionamentos que estão a gerar uma certa inquietação da sociedade curitibana.
Segundo especialistas, a violência é provocada por várias causas: desemprego desigualdade social, tráfico de drogas, facilidade que se tem para comprar armas e baixa escolaridade. Mas também por falta de policiamento preventivo. Nossas cidades estão com medo enquanto o governo parece estar perdendo a batalha contra a criminalidade. A Grande Curitiba precisaria triplicar o atual contingente policial para garantir a segurança dos seus cidadãos. A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda que o ideal seria termos um policial para cada 250 habitantes. Em Curitiba e Região Metropolitana, há um policial para cada 800 habitantes.
As metrópoles, diz Paulo Virilio, são catástrofes que se preparam. O século 21 terá que reinventar a relação do homem com a Terra, a relação do homem com a cidade. O planejamento urbano, assume neste contexto, um papel de destaque. Cabe aos nossos planejadores e urbanistas, com a participação da comunidade e dos seus representantes políticos, a dificil tarefa de apontar as diretrizes deste novo planejamento. Que não nos falte humildade e serenidade para tanto.


