Todos nós, cidadãos brasileiros, enfrentamos diariamente o problema do menor abandonado. A cada minuto nos deparamos nas ruas com crianças abandonadas, mal amadas, destruídas, prostituídas, drogadas...
Crianças que foram colocadas no mundo e sofrem com as mazelas de um país com inúmeros e graves problemas oriundos da desigualdade social.
Muitas vezes assistimos (confortavelmente instalados em nossos lares), programas na televisão que mostram claramente o drama destas crianças e de tantas outras, que sonham em ter uma família, e serem amadas, aceitas, acolhidas...
É em nome destas crianças que não posso deixar de registrar publicamante a minha indignação com o modo como estas questões têm sido tratadas em nosso país.
Não quero trazer aqui nenhuma tese política acerca destes fatos, mas gostaria de apresentar, neste espaço, uma situação real, não exclusiva, e que tem muito a ver com esta situação, principalmente se analisado sob ótica das relações humanas e sociais.
Há dois anos e meio, eu e a minha família conhecemos uma destas crianças morando na Casa do Caminho, um orfanato de Londrina.
Este garotinho estava institucionalizado desde os seis meses de idade quando fora levado por uma tia paterna que alegava que a mãe (solteira) não cuidava da criança e desejava que o orfanato tomasse conta dela.
Aos dois anos de idade esta criança não falava e pouco interagia com o meio. Tinha uns olhinhos arregalados e um cabelinho de índio e o fato é que nós todos nos encantamos com ela.
Pedimos uma guarda temporária para podermos ficar com a criança e, em seguida, entramos com o processo de adoção.
O fato seguinte (e torturante) é que, depois que está criança ganhou um lar, uma família com pai, mãe, irmãos, avô, avó, tios, primos, babá, escolinha, carinho, dedicação, cuidados de saúde e tudo mais que uma criança tem o direito de ter, apareceu um tal pai biológico, como que ‘‘surgindo das cinzas’’ requerendo a criança como se a mesma fosse uma mera mercadoria de propriedade sua.
E hoje, quase dois anos e meio depois, quando este pequeno já está com quase cinco anos de idade, nos vemos às voltas com a justiça enfrentando e resistindo à possibilidade de termos de entregar a criança a esse tal pai biológico (que nem sequer visitava-o no orfanato e nunca lhe dispendeu maiores atenções), como se esta criança não fosse um ser humano dotado de sentimentos e emoções e que, tal qual um pacote que foi parar no endereço errado, precisa ser trocado, em nome da lei.
Não quero aqui entrar no discurso que já ouvi algumas autoridades que justificam situações semelhantes a esta dizendo que ‘‘as pessoas mais humildes têm o direito de querer os filhos’’. Eu concordo completamente com isso, mas contra-argumento afirmando que conheço muitos pais e mães bastante desfavorecidos social e economicamente, mas que deram às suas crianças o que esta que está conosco até então não havia recebido adequadamente: amor e carinho.
O que ela conheceu destes sentimentos foi graças aos cuidados dispensados pela equipe que dirige o orfanato onde ela se encontrava. Amor e carinho não custam nada, nem para pobre e nem para rico. Se este pai amava tanto esta criança, poderia ter-lhe dado isso.
Diante da minha indignação, fico me perguntando: será que a vida já não foi demasiadamente dura para com está criança que teve de superar seus medos praticamente sozinho até os 2 anos de vida?
Agora que ela está feliz, está na escolinha cercado de amiguinhos e do carinho dos professores, cercado de atenção de todos os lados, está conseguindo se comunicar verbalmente com as demais crianças graças a um ano de tratamento com fonoaudiologia, tem uma identidade familiar... será justo tirar delas todas estas referências, toda está felicidade?
Quais serão as sequelas que esta situação vai deixar nesta criança? Com que estrutura emocional este pequeno vai enfrentar as dificuldades e perdas futuras? Quais serão as consequências desta decisão e como elas repercurtirão mais tarde na vida desta criança?
Por mais que nos expliquem as autoridades não conseguimos nos conformar com esta situação. Não conseguimos crer que, em nome da lei, continue proliferando em nossa sociedade tantos mecanismos perversos de desajustes sociais e emocionais.
A mesma lei que diz pretender retirar as crianças da rua acaba sendo a mesma lei que devolve as crianças para a rua, sem dar-lhe a opção de terem oportunidade na vida.
Digo isso porque nosso caso não é o único. Ao longo deste processo conhecemos outros pais adotivos (ou com a vontade de) que passaram e/ou estão passando pelos mesmos problemas que nós. E é em nome destes pais que hoje estão vivendo situações semelhantes à nossa que trazemos à tônica esta polêmica.
As autoridades competentes devem ver que atrás de cada papel existe uma coisa mais complexa chamada ‘ser humano’, que tem sentimentos, que chora, que ri, que sente medo, alegria, que tem uma estrutura emocional e que, por mais criança que seja, merece uma chance de ser feliz.
No mais, só é possível pedir à Luz Divina que ilumine as suas decisões e lhes dê sabedoria e orientação para que os compromissos com a Vida sejam mais importantes dos que os com os papéis, porque se transformam em histórias, são atualizados e reelaborados de acordo com as novas necessidades se preciso for. As leis não podem ser verdades incontestáveis e absolutas.
Temos certeza de que a resolução do problema do menor abandonado no Brasil passa, também, pelo enfrentamento de situações como esta e com a ousadia de buscarmos novas referências e valores em busca de uma sociedade mais humana e mais ética.

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