Os de cima sobem e os debaixo também
Karl Marx, nascido em 1818, viveu tempos agitados e agitou a mais não poder seu tempo, pois não era somente um intelectual mas um ativista que pretendia acelerar a revolução proletária que julgava inexorável. Conforme ensinava, a força é a parteira das revoluções, e assim seu pensamento portentoso transpôs os claustros da teoria e incendiou mentes e corações que seguiram fielmente o mestre a partir de uma fé inabalável em suas profecias. Tudo estava rigorosamente previsto a partir de um processo histórico baseado nos meios de produção e, desse modo, ao capitalismo se seguiria o socialismo e depois o comunismo. Mesmo porque, a mesma revolta das forças produtivas, que condenou a sociedade feudal a perecer em proveito da sociedade burguesa que nela se incubava, deveria em virtude de uma mesma necessidade dialética destruir a burguesia em proveito do proletariado, conforme está assinalado no Manifesto do Partido Comunista. Impressionante!
No século passado, que daqui a poucos meses será século atrasado, outros também socialistas propunham teorias, sonhavam com sociedades perfeitas e desejavam alterar a ordem das coisas. Aliás, a palavra socialismo não teria sido inventada por Marx, mas sim por um discípulo da Saint-Simon, Pierre Leroux, que a criou em 1832 por oposição a individualismo. E entre os nomes que marcavam o grande protesto socialista pode-se citar o próprio Saint-Simon, Fourier, Owen, Louis Blanc e Proudhon.
Proudhon, que em 1840 publicou Primeira Memória sobre a Propriedade, afirmou sem rodeios que a propriedade é um roubo, e isso deve ter causado enorme frisson entre seus contemporâneos socialistas. O próprio Marx, que juntamente com seu inseparável companheiro Friedrich Engels se declarara comunista para se diferenciar dos demais socialistas, tentou atrair Proudhon enviando-lhe uma carta. Este, porém, mostrou reservas com relação às tendências de Marx, tendo respondido o que se segue numa carta datada de 17 de maio de 1846: Procuremos juntos, se o quiserdes, as leis da sociedade (...) mas por Deus, depois de havermos demolido todos os dogmatismos a priori, não pensemos por nossa vez em doutrinar o povo (...) não nos tornemos chefes de uma nova intolerância, não nos estabeleçamos apóstolos de uma nova religião (...).
Mais adiante Proudhon sofreu ácidas críticas da parte de Marx, e Engels escreveu Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico para demonstrar a solidez da doutrina que deveria embasar a nova sociedade sem classes.
No tocante à teoria sobre classes sociais Marx e Engels adotaram o modelo biclassista, como haviam feito Adam Smith e Ricardo ao falar de classe pobre e rica, ou, sobretudo, como Hegel, que na sua Fenomenologia do Espírito discorreu sobre a dialética do senhor ou da riqueza, do servo ou da pobreza. Desse modo, as fontes da teoria marxista sobre classes se encontram nos economistas clássicos e nas obras de Hegel. Por conta disso, mesmo sabendo que existiam outros grupos sociais, só interessava a Marx e Engels a dicotomia burgueses e proletários ou as grandes forças dominantes nos conflitos sociais, pois emergira nitidamente da Revolução Industrial o capital e o trabalho assalariado, forças antagônicas em constante e encarniçado conflito que se resolveria na síntese final da sociedade sem classes.
A partir das circunstâncias sociais de sua época, Marx e Engels profetizaram, então, três processos que conduziriam ao endurecimento do conflito entre as duas grandes classes até a inevitável explosão revolucionária: 1) Só restariam burguesia e proletariado na medida em que os grupos intermediários seriam pulverizados através da concorrência capitalista, se proletarizando. 2) Os ricos burgueses se tornariam mais ricos e os pobres proletários mais pobres. 3) As duas classes se tornariam progressivamente mais uniformes e coesas.
Vejamos o que aconteceu na realidade conforme assinalado por Ralf Dahrendorf: 1) Os grupos intermediários do tempo de Marx desapareceram de fato, mas novas classes médias muito mais diversificadas surgiram da racionalização industrial, das novas funções governamentais e do impulso sofrido pelos transportes e meios de comunicação. E isso hoje em dia não cessa de acontecer, o que pode ser exemplificado através das novas profissões geradas pela Internet, o que por sua vez faz surgir novas categorias sociais. 2) Os de baixo não desceram, mas subiram, pois sobretudo e justamente nas sociedades capitalistas avançadas os salários dos trabalhadores melhoraram e, consequentemente, suas condições de vida. 3) Quanto a uniformidade das duas classes, não se verificou. A especialização do trabalho gerou linhas diferenciadas entre os trabalhadores e dentro da burguesia surgiram grupos mais cada vez mais competitivos.
Mesmo no Brasil, onde a desigualdade originada do nosso processo formativo é evidente, houve a partir da estabilização econômica advinda do Plano Real uma melhoria do padrão de vida das classes mais pobres, e isso é comprovado por vários índices de pesquisas realizadas por entidades fidedignas como o IBGE, a Fundação Getúlio Vargas etc.
A propósito, um aspecto bastante interessante da nossa realidade foi apresentado pela Veja desta semana, que juntamente com 16 universidades pesquisou o problema fundiário. Segundo a revista, está em curso no campo uma revolução silenciosa, a geração em massa de empregos na área de serviços. Nos anos 90, para cada ocupação desativada pela mecanização no campo foi criada pelo menos uma outra na mesma região, desvinculada, porém, da atividade agrária convencional. Assim, os pequenos agricultores foram se transformando em garçons, pequenos comerciantes, balconistas etc., o que reduz um problema que antes se julgava inabordável no Brasil: o êxodo rural.
De tudo isto se conclui que, na prática, a teoria classista de Marx e Engels foi contrariada, assim como o refrão de uma música popular em voga no momento, pois se hoje os de cima às vezes sobem, os debaixo também. Que Deus nos livre, então, dos chefes de uma nova intolerância, dos apóstolos de uma nova religião.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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