Os concursos públicos e a filosofia
Quem procura um concurso público normalmente está em busca de uma vida tranqüila com prazeres garantidos. O acesso a um cargo público parece trazer consigo uma perspectiva de calma e de um lugar seguro para seguir a vida até a velhice. É esta estabilidade que vem atraindo um número cada vez maior de pessoas que pretendem ingressar no serviço público por meio de concursos. Curiosamente, este é também um dos temas que a reflexão filosófica está a indagar. A pergunta sobre como encontrar uma vida feliz e
sem atribulações tem preocupado os filósofos durante os séculos.
Já na Grécia antiga Platão buscava refutar os sofistas com uma receita de vida baseada no amor a verdade e ao bem. Enquanto os sofistas viam o mundo como um lugar em que qualquer opinião poderia ser defendida. Platão insiste que uma vida correta terá que se pautar pela busca da verdade. Isso nos faz lembrar uma opinião corrente hoje em dia de que, para subir na vida basta a esperteza, e o tradicional jeitinho brasileiro. Muitos dos que buscam um concurso público parecem ter em mente uma esperteza achando que a vida do funcionário público seria um mar de rosas em que ninguém trabalharia de verdade. A filosofia nesse caso oferece uma perspectiva diferente em que a verdadeira felicidade teria que vir juntamente com o esforço. Assim o tradicional jeitinho daria lugar ao esforço de se realizar com o trabalho.
Aristóteles no início de sua Ética a Nicômaco, diz que o bem é aquilo para o qual todas as coisas tendem. Isto quer dizer que nossos atos na vida prática têm que se pautar em vista desse bem. Aristóteles ao aconselhar seu filho com uma ética que prescrevia os comportamentos corretos tinha este bem em mente. Uma vida regrada teria que pensar os fins como inseparáveis dos meios. Não adianta querer o bem ou uma posição confortável se para atingir seus objetivos alguém se utiliza de meios ilícitos. Nos concursos não seria diferente já que a aprovação só chega através de um esforço. O estudo e dedicação são meios para atingir à tão sonhada aprovação. A filosofia não conhece soluções fáceis para os problemas do homem. Este precisa querer se aperfeiçoar e se esforçar neste sentido para atingir seus objetivos.
Passando agora a um pensador mais próximo de nós, vamos falar de Karl Marx. Marx dizia que o ser humano só se reconhece enquanto trabalha. Já que neste, o homem constrói seu próprio destino e o da humanidade em geral. Na perspectiva de quem procura o serviço público para se dar bem não é o trabalho que conta, mas sim a esperteza de evitar o esforço. Assim estes entram numa perspectiva alienada em que não constroem seu destino com seus esforços, mas sim, graças a subterfúgios. Marx perceberia neste comportamento uma perversidade, e reconheceria no trabalho um castiago para a humanidade e não um lugar de construção do homem.
A filosofia nos faz pensar que o lugar de uma vida feliz e plena para o homem passa longe de um mero querer se dar bem. A felicidade para os filósofos vem sempre acompanhada de uma procura e de uma disposição para o trabalho. Para a filosofia, o homem deve achar seu lugar no mundo, não apenas em busca de um conforto material, mas através de uma realização que leva em conta todos os aspectos de seu ser. Para tanto, o trabalho se constitui em lugar de busca e de realização e não de acomodação e desleixo.
Aqueles que se interessam em prestar um concurso, deve ter em mente que, devemos trabalhar não apenas para passar no concurso, mas também depois, quando estiver aprovado precisamos continuar com essa disposição. A carreira no funcionalismo deixa muita gente num marasmo em que não se produz nada e se engana ao invés de se trabalhar. Num país em que tantos problemas urgem uma resposta, o funcionário público deve se imbuir de um espírito coletivo e trabalhar efetivamente para mudar o quadro de nosso país. Ingressar na carreira pública requer disposição para encarar desafios que passam longe do jeitinho e da esperteza.





