O Partido dos Trabalhadores completa cem dias à frente do governo e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou à Nação por meio de uma cadeia de rádio e televisão. Otimista, como convém e deve ser qualquer mandatário, deu ênfase às conquistas econômicas destes primeiros meses, ressaltando que o dólar, a inflação e o risco Brasil caíram, que os títulos brasileiros estão valorizados lá fora e o crédito externo recuperou a confiança.
''O mundo voltou a acreditar no Brasil'', afirmou o presidente. Esta avaliação dos cem dias é uma praxe na política verde-amarela, o que não significa que sirva como parâmetro para qualquer tipo de julgamento, tanto positivo como negativo. Mas é possível ter uma visão panorâmica daquilo que pretende adotar o governo petista em regras gerais.
Discutir as razões das mudanças talvez seja uma tarefa mais apropriada aos sociólogos. Mas a realidade é que qualquer cidadão que tenha estado no Brasil há exatamente um ano e retornasse agora, não acreditaria que o poder político está sendo exercido pelo mesmo partido que, à época, apregoava mudanças profundas no sistema econômico, financeiro e social.
A guinada se deu em meados de 2002 quando o comando de campanha do PT lançou a ''Carta ao Povo Brasileiro'', enumerando e assumindo uma série de compromissos caso Lula fosse eleito. A vitória foi histórica e as promessas não só cumpridas como, em alguns casos, indo além de todas as expectativas até para o mais cético dos conservadores. Daí que os últimos cem dias foram repletos de emoções. Mesmo os adversários foram obrigados a reconhecer que pela primeira vez no Brasil havia uma proposta por mudanças, um clima de ''esperança vencendo o medo''. Os petistas foram sim, extremamente pragmáticos. A fórmula pode estar contida na frase do ministro Tarso Genro: ''É preciso saber combinar utopia com realismo.''
Os resultados desta tática podem ser avaliados pela primeira pesquisa de opinião publicada sobre o governo Lula, em que 85% da população apóiam o presidente. Não deixa de ser um patrimônio político dos mais importantes. Os brasileiros têm consciência das imensas dificuldades que o novo governo enfrentou, começando pela própria rejeição das elites econômicas e do enigmático mercado. As medidas até agora adotadas são paliativas e visam apenas conter o dique, no entanto, a vazão d'água continua intensa e talvez seja necessário reconstruir toda a barragem.
Os grandes dilemas do Brasil têm suas origens na exclusão social cada vez maior, na injusta distribuição de renda que privilegia uma minoria e no desemprego crescente. Deste ''mix'' resulta a violência, a subnutrição, o baixo nível educacional, a fome, enfim, a miséria absoluta que tão bem conhecemos. A pergunta que fica é até quando a sociedade estará disposta a esperar pelas mudanças?
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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