Que cada povo tem o governo que merece, não há dúvida. Então, não temos que pretender melhorar os candidatos se não nos melhorarmos como sociedade, porque os candidatos são egressos do mesmo agrupamento social. Se jogamos um anzol à água não vamos fisgar um colibri, mas um peixe. Do meio, pinçamos um homem ‘‘à nossa imagem e semelhança’’ e não um super-homem. Do seio das massas temos extraído os políticos que sempre tivemos, e nesta eleição não será diferente. Não esperemos, portanto, eleger um presidente, um governador, um parlamentar, melhores do que somos. Eles serão exatamente iguais a nós.
Então, já sabemos como eles serão, porque sabemos como somos. Se honestos, teremos governantes honestos. Se elegemos governantes corruptos, é porque o universo dos eleitores tem a sua porção corrupta. É certeza absoluta que a maioria dos que iremos eleger neste 4 de outubro não tem muito espírito público, porque nós, eleitores, na correspondente maioria, também não o temos. Se não iremos eleger uma maioria de patriotas é porque nós, eleitores, também não somos uma maioria de patriotas.
Cada qual irá votar naquele que entende como o melhor, e o melhor será sempre aquele que se identique com cada um. O eleitor espertalhão se encantará pelo canto-de-sereia do candidato espertalhão; o eleitor trambiqueiro será atraído pelo candidato com iguais características; o eleitor discursivo e falastrão achará bonita a fala do candidato discursivo e falastrão; o eleitor que mente encontrará verdades no discurso do candidato mentiroso; o eleitor que carrega dentro de si instintos de arrogância e prepotência apreciará o candidato que fala a mesma linguagem, porque se encontrará nele. Os iguais se atraem.
Nós gostamos de cantar as canções daqueles que cantam com a voz que se assemelha à nossa...
Cada região deste país aprecia um certo tipo de candidato. Porque cada qual fala a linguagem do seu povo. Há redutos onde o governante é o rei, e o rei tudo pode, porque desde pequenos todos foram ensinados que assim é, e ninguém lhes disse que é diferente.
Não há ninguém que não sabe votar. Todos votam conscientes, segundo seu padrão de valores. Se há os que vendem o seu voto por dinheiro ou favores, este é o nível deles, e o governante já não precisará proporcionar-lhes mais nada, porque já cumpriu sua parte ao conceder-lhes o benefício da barganha. O governo, para esses, encerra-se aí. Até que chegue a próxima campanha.
O eleitor irado e revoltado com o mundo votará em candidatos revoltados com o mundo, e não lhe importará que seus eleitos exerçam ou não um bom governo, basta que continuem revoltados com o mundo... O eleitor sério, consciente, que pensa cidadania, se identificará com o candidato sério, consciente, que pensa cidadania...
Então, aqueles candidatos que repudiamos, podem estar encantando o eleitorado que se identifica com eles. Fosse diferente e não haveria tanta gente ouvindo comícios. Muitas e muitas pessoas apreciam ouvir, nos palanques e pelo rádio e televisão, os discursos dos políticos. Sentem-se coadjuvantes, incorporam-se ao espetáculo, falam pela voz do candidato e, nesse palco, são ao mesmo tempo atores e platéia.
Se os políticos, na maioria, são irresponsáveis, é porque nós eleitores temos também muito desse atributo.
Brasileiro se queixa muito mas é bonzinho. Vive reclamando dos políticos mas não lhes cobra nada. Por mais que aprontem, não tem propensão a jogar bosta neles... Se queremos melhorar os políticos temos que começar pela busca de melhorar os eleitores, que somos nós mesmos.
Todos temos muito de um FHC, de um Lula, de um Enéas. A bomba que Enéas quer fabricar e ver explodir corresponde à potência de 1% dos votos que ele tem, mas também ao 1% do espírito de detonadores que existe em cada um de nós. A ira de Lula, e também as suas verdades, estão na exata proporção da ira que carregamos no nosso dia-a-dia e das nossas revoltas. E se a maioria irá eleger FHC - como tudo indica que acontecerá - é porque se identifica nele, nas suas virtudes e boas-vontades e nas suas miopias e ingenuidades.
Todos os candidatos em quem votaremos neste 4 de outubro serão os exatos governantes que queremos eleger. Iremos sufragar os honestos, os com espírito público, os com vontade política, os espertalhões, os velhacos, os enganadores. Temos feito assim desde que passamos a exercer o voto livre, e desta vez não será diferente.
Quando nos mudarmos, estarão implicitamente mudados também os políticos, porque eles serão nós. Não tenhamos ilusões, nem gastemos em vão nossas iras e revoltas: os políticos que temos são gente da nossa roda, são nossos legítimos representantes... Se sabemos como somos, não vamos esperar que eles sejam diferentes!
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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