Em meados deste ano, o ex-secretário da Presidência da República Eduardo Jorge estava na berlinda da mídia, enxovalhado por uma série de acusações e suspeitas, todas ‘‘vazadas’’ de investigações do Ministério Público (MP) e manobradas por políticos da oposição ao governo federal, o PT, o PPS, o PC do B, entre outros. Não havia provas e ele nem sequer tinha sido formalmente intimado para prestar declarações no MP, e muito menos tinha tido oportunidade para se defender. Respondeu a todas as perguntas que lhe fizeram na CPI do Judiciário, no Congresso Nacional – a mesma CPI perante a qual agentes do MP declararam que as investigações sobre o caso estavam ‘‘apenas engatinhando’’. No entanto, Eduardo Jorge já estava condenado pela ‘‘opinião publicada’’.
Ora, ora. Não é que agora é o MST – sempre apoiado por aqueles partidos de oposição – que está sofrendo o mesmo processo de linchamento moral? O Movimento está sendo investigado pela Polícia Federal, depois que auditorias feitas pela Secretaria Federal de Controle e o Incra apuraram indícios de que ‘‘lideranças do MST cobravam pedágios’’ – que oscilam entre de 3% a 11% – sobre os créditos da reforma agrária em pelo menos 14 Estados (cf. publicado nesta Folha, 18/10, fl. 8, Geral). Os líderes do MST, obviamente, negaram, e reagiram dizendo que isso é uma tentativa de desmoralizar e incriminar o Movimento. Pois é. A mídia está divulgando indícios e suspeitas, exatamente como o fez contra Eduardo Jorge. ‘‘Quem com ferro fere...’’
E por falar em MST, essas investigações sobre o tal ‘‘pedágio’’ apuraram também que alguns prefeitos estavam incentivando as invasões a propriedades rurais, como no caso do prefeito de Itaquiraí, no Mato Grosso do Sul (cf. o jornal ‘‘O Estado de S.Paulo’’ 11/10, p. A12), e do prefeito de Teodoro Sampaio, no Rio Grande do Sul (idem, 18/10, p. A11). Tal fato merece ser melhor debatido pelos candidatos a prefeito, nesta última semana antes do segundo turno do pleito municipal em Curitiba, Londrina e Maringá. Porque o eleitorado tem o direito de saber como os futuros prefeitos se relacionarão com o MST. Afinal, embora a bandeira da reforma agrária seja apreciada e acolhida pela maioria dos brasileiros, os métodos do MST, utilizados para pressionar os governos municipais, estaduais e federal, também são desaprovados pela maioria dos brasileiros.
Em Curitiba, os sem-terra invadiram e ocuparam uma praça pública, a praça de Salete, defronte aos Palácios Iguaçu e da Justiça, durante cerca de seis meses. Ali eles se mantiveram também com o auxílio da prefeitura, que diariamente executava serviços de drenagem de latrinas. Ou seja, a prefeitura, custeada pelos impostos pagos por todos os curitibanos, prestava serviço a um grupo que estava ilegalmente acampado na praça que é para todos, não para alguns. Demorou meio ano para o prefeito do PFL, hoje candidato à reeleição, demonstrar que democracia se faz com o respeito às leis.
Então, neste momento seria interessante que os candidatos a prefeito esclarecessem o eleitorado a respeito de suas idéias, seus conceitos e suas intenções para com as atividades do MST. Principalmente os de partidos que sempre apoiaram o MST, como o PT – que, na Capital, está coligado com o PPS, ex-PCB (Partido Comunista Brasileiro), com seu candidato a vice José Maurino (que nunca exerceu cargo eletivo e de quem pouco se diz ou se sabe), com o PC do B (Partido Comunista do Brasil), e com o PV (Partido Verde).
O jornalista Luiz Geraldo Mazza disse ontem, nesta Folha: ‘‘Nada está mais obscuro e dissimulado do que o PT nesta eleição. A face angelical assumida é falsa, o dístico é fajuto e de vermelho se fez amarelado na estrela clássica, ocultaram o Lula, enfim simulacro geral’’. A afirmação veio como resposta à acusação feita pelo coordenador da campanha do PT, de a Pesquisa Folha (Folha de Londrina/Folha do Paraná) ‘‘ser vendida’’ e de que ele proporia o prêmio Pinocchio. Nessa razão, seria importante sabermos dos compromissos do candidato do PT e suas coligações, na administração das manifestações em defesa da reforma agrária. Sendo eleitor em Curitiba, eu gostaria de saber onde os sem-terra irão acampar quando vierem fazer suas reivindicações, e por quanto tempo, e com que apoio logístico da prefeitura. Mas que respondam sem dissimulações, simulacros e ocultações.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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