Os candidatos e as igrejas
Não se sabe qual a diferença entre fazer comício em praça pública, em lugares fechados, em instituições privadas, em auditórios ou dentro de uma igreja. Se os candidatos podem entrar numa empresa e falar aos funcionários, desde que a direção lhes permita, com os templos deve ser a mesma coisa. Organizações religiosas não são instituições públicas, portanto se o titular e a comunidade a elas ligadas permitirem, não existe ali nada que diferencie esse local de outro qualquer. Se membros das igrejas e seus pregadores podem candidatar-se, os seus púlpitos podem ser utilizados para a campanha, se os fiéis estiverem dispostos a ouvir. Não se entende porque a Justiça Eleitoral, em Curitiba, impôs a proibição. Se for contrária a algum princípio a fala dos políticos, então deveria ser proibida em todos os lugares e inclusive nos parlamentos. Se é verdade que a maioria quase absoluta dos cidadãos não aprecia ouvir candidatos e suas enfadonhas falações, o discurso continuará da mesma forma, fora ou dentro das igrejas. Se os fiéis acreditam no que lhes dizem seus líderes religiosos, deverão certamente acreditar também em suas idéias e promessas eleitorais. Certamente os candidatos não falarão diferente do que costumam, pelo fato de estarem travestidos de candidatos. As igrejas continuarão apoiando os políticos afinados com suas crenças, estejam eles sob as abóbadas ou no adro do templo. Se uma proibição vale, deveria também valer a proibição de qualquer religioso votar em algum membro de sua igreja, mas isso significaria anular todo o processo eleitoral. Nos parlamentos existem as bancadas religiosas, e elas assim se proclamam. Como tal, também deveriam ser proibidas de mencionar, dentro das casas legislativas, palavras ligadas às suas convicções de fé. O que se quer dizer é que, se houver consentimento dos responsáveis pelas instituições religiosas e da assistência, não há porque o candidato não possa ir lá e fazer sua proposta eleitoral, e esta é uma decisão que não comporta ingerência do Estado. Seria o mesmo que proibir que políticos entrem nas residências e façam campanha se para isto tiverem consentimento dos familiares da casa. De certa forma já o fazem sem autorização, nos horários gratuitos de rádio e televisão, pois adentram os lares e dizem o que querem. Para sempre há o recurso de sair do comício, sair da sala ou desligar os aparelhos, sair de dentro da igreja. Há coisas mais sérias com que a legislação eleitoral atentar, como a qualidade dos candidatos, que deveriam ser monitorados e aprovados segundo seus conhecimentos acerca de cidadania e direitos dos cidadãos, sua capacidade gerencial e sobretudo sua formação moral e sua história de vida.





