Porta-vozes semi-oficiais do governo procuram mostrar que o Palácio do Planalto aprecia o trabalho da CPI do Senado, sobre os títulos públicos, mas espera que os senadores não investiguem o eventual envolvimento dos grandes bancos do País, na questão dos precatórios.
Ninguém entende os motivos de tal restrição, tanto mais que o menos indicado para formulá-la é o governo, que, afinal, tem afirmado e reafirmado não pretender interferir nas investigações da CPI. A desculpa de que a abertura de novos rumos investigativos, a essa altura, perturbaria as votações, no Senado e no Congresso, não procede. Nada pode ter precedência sobre o dever de apurar irregularidades cometidas contra o erário, para que os culpados recebam punição exemplar.
Portanto, se há o que apurar nos bancos, por que não fazê-lo? O que parece inaceitável é que a CPI - como aconteceu com a que investigou os anões do Orçamento, na legislatura anterior - tendo encontrado pistas sobre a existência de outros culpados, se dê por satisfeita e desista de investigá-los ou faça investigações insatisfatórias.
O relator da CPI, senador Roberto Requião, se diz disposto a investigar tudo o que puder, para que a investigação não acabe em pizza. Por sinal, a uma emissora de televisão, quando lhe indagaram se o Senado também não tinha culpa, no caso, pela ligeireza com que aprovara, em regime de urgência, o lançamento dos títulos públicos, Requião levantou mais um véu que encobria tal matéria. Havia dúvidas sobre esses papéis - explicou ele - mas os líderes do governo e dos partidos aliados do presidente Fernando Henrique Cardoso apoiaram a votação em urgência e, depois, aprovaram o lançamento dos títulos, como se estes fossem regulares.
Por que os líderes agiram dessa forma? Fizeram-no por sua própria conta e risco ou atenderam a solicitações do executivo, então interessado em manter boas relações com governadores e prefeitos, para facilitar a aprovação da emenda constitucional das reeleições?
Até o momento, porém, tais líderes nada esclareceram, como se quisessem - quem sabe? - diluir a culpa que têm, no episódio, na difusa resposabilidade que os demais senadores assumiram, por obedecer às lideranças parlamentares de FHC.
Essa é uma das questões mais delicadas com que se defronta o presidente, depois de ter conquistado, na Câmara, em duas votações, o direito de concorrer à reeleição em 1998. Em seu próprio benefício, FHC devia esclarecer amplamente esse assunto, antes que ele cresça e espalhe dúvidas sobre o governo. Não se questiona a honorabilidade pessoal do presidente, no trato da coisa pública. Mas a política, por vezes, percorre pântanos e lamaçais em que a melhor reputação, a qualquer descuido, e até por culpa de terceiros, pode afundar inapelável e irremediavelmente.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.

mockup