Por falta de instituições sólidas, cultiva-se, no País, um sistema de decisões por circunstâncias. Nada é definitivo, orientado para uma longa duração. Pratica-se a política do varejo. Um remendo aqui, outro ali, e o País vai administrando seus ciclos de crise. Exemplo disso são os impostos que se arranjam para tampar a sangria dos cofres públicos. O que se decide, hoje, pode ser mudado amanhã. A ausência de um projeto estratégico impede que se possa divisar os horizontes do futuro. A análise política, em consequência, não adquire, entre nós, aquele sentido de permanência que pode se ver em países de democracia estável, como os europeus, ou em sistemas normativos consolidados como o norte-americano. Apesar de tudo isso, é possível se distinguir alguns traços que deverão marcar o cenário sócio-político do País nos próximos anos.
Um primeiro traço aponta para a saturação do modelo fisiológico de fazer política. Mesmo nas regiões menos aculturadas, onde o poder é administrado pelas grandes famílias, observa-se crescimento do conceito de autogestão política, pelo qual o cidadão, de forma autônoma, toma decisões e escolhe livremente seus representantes. Pode-se dizer que o voto está saindo do coração para subir à cabeça, na esteira da expansão da racionalidade. Um segundo traço que, a cada eleição, tem se mostrado mais visível, é o do crescimento da micropolítica, pela qual os grupos e as comunidades passam a selecionar seus representantes em função da proximidade e dedicação que demonstram para com os problemas locais e regionais.
Esses traços certamente empurrarão o sistema político para um espaço de mudanças. Primeiramente, no campo partidário. A formação partidária, hoje com quase 40 entidades, tende a se concentrar, dividindo-se em cinco ou seis grandes tendências, que agrupam os grandes eixos do pensamento nacional. Derrubar-se-á, desse modo, a sigla de aluguel. A estabilidade e a própria consolidação do sistema representativo exigirão partidos mais fortes, que estarão cada vez mais acirrados na competitividade e na disputa pelo poder. O voto distrital misto se apresenta como o mais conveniente. Os cidadãos querem eleger um representante com funções de despachante, uma espécie de vereador federal. E outra parte terá uma visão mais abrangente, sendo eleita por eleitores de todas as regiões. A grande questão estará centrada na definição do conceito de distrito.
As mudanças que ocorrerão na fisionomia política - que contemplarão, ainda, o estatuto da fidelidade partidária (que não deverá ser engessante) conduzirão o Legislativo a caminhos mais independentes. Hoje, o Congresso, em função de sua dispersão e frágil consistência doutrinária dos partidos que o integram, vive a reboque do Poder Executivo. Praticamente, trabalha para referendar as ações e os projetos do governo federal. Os novos traços darão às duas casas congressuais maior liberdade de ação e menos subordinação ao Executivo. E é por isso que podemos divisar um presidencialismo menos concentrador de força. Será mitigado. E há até quem aposte num parlamentarismo não muito distante, a se implantar no momento em que os partidos adensarem doutrinas.
O primeiro biênio do governo Fernando Henrique será passado no purgatório. A recessão e a equação de equilíbrio das contas públicas praticamente tomarão conta do sistema decisório. As tensões sociais, a partir de um contexto de compressão no fluxo dos programas sociais e dos investimentos, se agravarão, não se afastando os cenários devastadores das ruas e dos movimentos paredistas. A trama poderá ser mais complicada, pois no meio do mandato presidencial, travar-se-á a maior batalha municipalista das últimas décadas: a campanha da reeleição da prefeitada. São mais de 5.500 prefeitos, dos quais - pode-se garantir - mais de 90% trabalharão a recandidatura. Para evitar o estouro da boiada (e dos cofres públicos), o Congresso deverá exigir a saída dos candidatos à reeleição seis meses antes do pleito.
Pode-se, ainda, apostar na morte do voto obrigatório, apesar de razoável contingente parlamentar acreditar que o País precisa amadurecer em matéria de eleições, devendo, em consequência, obrigar os cidadãos a frequentar as cabines eleitorais. A conclusão geral que esses traços indicam é a de que o País está andando mais apressadamente nos caminhos da racionalidade, da autonomia e da cidadania.

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