Dirce Conte e Maria Aparecida Feiges
A noção de que a inteligência se revela no garotinho que é bom em matemática ou na garota que lida com as palavras com maestria já não é novidade. Na década de 80, Howard Gardner desmistificou esse pensamento com a identificação de sete tipos de inteligência, que incluía aspectos até então pouco valorizados, como a habilidade musical e a capacidade de o indivíduo se relacionar com seus semelhantes. O fato fez com que muita gente e, em especial, muitas empresas se preocupassem mais com esses aspectos e passassem a investir em treinamentos ‘‘menos ortodoxos’’.
Nesses poucos anos que nos separam da descoberta de Gardner, no entanto, a concorrência e a globalização exigem mais das empresas e dos profissionais. Surge, então, a necessidade de pessoas que tenham outro tipo de inteligência: à que, depois de estudarmos com cuidado, denominamos de ‘‘inteligência remota’’.
A oitava inteligência – se é que Gardner nos permitiria essa complementação – pode ser, a priori, sintetizada como a capacidade de criar ou captar coisas que aparentemente (ou ainda) não existem, ou que são inconcebíveis para quem se mantém preso a uma rotina pensante viciada. Essa oitava inteligência não é algo que nasce e morre com o indivíduo. Ela passa obrigatoriamente pelo desenvolvimento da capacidade de concentração e pela valorização das intuições e do diálogo.
O profissional com ‘‘inteligência remota’’ tem maiores possibilidades de ter grandes ‘‘insights’’, que podem resultar em ações que levem a empresa ao desenvolvimento – mesmo que ele não seja computado no resultado financeiro do mês seguinte. A denominação ‘‘remota’’ se deve justamente a isso. A oitava inteligência não proporciona resultados práticos imediatos, mas cultivar profissionais com essa característica pode significar avanços surpreendentes no futuro.
Em ‘‘2001, Uma Odisséia no Espaço’’, Arthur Clark descrevia o Sol nascendo por trás da Terra, visto da Lua. O ‘‘absurdo’’ da ficção, no entanto, tornou-se real anos depois. Os pára-quedas e helicópteros, aquelas estranhas máquinas desenhadas por Leonardo Da Vinci no século XV, tornaram-se realidades que não nos surpreendem mais. Em ‘‘Vinte Mil Léguas Submarinas’’, Júlio Verne descrevia a sensação de estar em um submarino, muitos pés abaixo do nível do mar, quando tal máquina nem existia. Muito tempo depois, marinheiros que viajaram nos primeiros submarinos descreviam a mesma sensação inquietante e nervosa descrita por Verne. Peter Druker e Alvin Toffler falavam de marketing e tecnologias da informação no fim da década de 60 (veja o absurdo!).
A ‘‘inteligência remota’’ é a capacidade de antecipar soluções, mesmo que elas, a princípio, pareçam pouco adequadas para a era do fast-food.
Para que profissionais que tenham essa característica possam se desenvolver e se multiplicar dentro das organizações, no entanto, é necessário que elas comecem a se preocupar em construir dentro delas um ambiente diferente; um clima organizacional que seja favorável à concentração, ao uso da intuição e da criatividade; que permita que em algum momento seus parceiros tenham espaço para a meditação e o exercício da ‘‘inteligência remota’’. Um ambiente que também estimule o que antes era considerado perda de tempo: o diálogo e os papos informais entre funcionários nos corredores e no cafezinho.
O que temos percebido em inúmeras pesquisas e consultorias empresariais é que as organizações não valorizam a ‘‘inteligência remota’’ nem em seus departamentos de marketing, que têm apenas que criar métodos de lucratividade rápida. Por que não criar soluções financeiramente viáveis para hoje e também dar espaço para o desenvolvimento de idéias ‘‘absurdamente possíveis’’?
O maior desafio das empresas daqui para a frente será transformar o conhecimento da rotina no conhecimento que parte da engenhosidade e da criatividade de seus colaboradores. O grande diferencial das empresas hoje e a melhor forma de elas se manterem à frente, no futuro, é apostar no conhecimento como valor corporativo e na valorização do processo de geração, codificação e transferência do conhecimento. Quando esse raciocínio for realmente valorizado, a oitava inteligência não parecerá assim tão remota.

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