Os caminhos da igreja - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de março de 1999
Walmor Maccarini 
A Igreja Católica brasileira incursiona agora por novas formas de evangelização, e a mais recente delas é a missa afro, anunciada em entrevista a este jornal pelo bispo negro D, Gilio Felício e celebrada por ele em Apucarana, domingo, ao ordenar um padre também negro. O prelado é bispo-auxiliar de Salvador (BA).
Em sua trajetória mais recente, a Igreja Romana, depois de abandonar as celebrações litúrgicas em latim e despir a batina dos padres, assentou os pés na terra, com suas comunidades eclesiais de base e a sua Teologia da Libertação, dedicando-se menos às questões da espiritualidade e sobrevalorizando as necessidades temporais do homem. O Papa saiu do Vaticano e começou a viajar pelo mundo. Padres ingressaram na militância política.
No Brasil, o padre Marcelo Rossi implanta um novo rito e arrebanha os jovens desgarrados. Enquanto as denominadas igrejas bíblicas valem-se da frequente menção ao demônio para manter cativos os seus fiés, o padre aeróbico fala de anjos, e todos cantam livres e felizes.
Cada pessoa já encerra dentro de si a espiritualidade, e padre Rossi facilita que ela se manifeste. Nada errado.
Mas todos esses novos modelos de evangelização, de católicos e evangélicos, são cosméticos, que podem acordar a espiritualidade adormecida nas pessoas mas ainda não conseguiram despertar nelas a consciência de sua plenitude divina e de sua transdimensionalidade.
As igrejas sempre limitam o homem à condição de um pequeno ser, coberto de pecados, que só se purificará pelo sofrimento, e sujeito, pelas suas iniquidades, a ser arrastado ao fogo do inferno (não metafórico, mas verdadeiro) por demônios com vontade de levá-lo e por um Deus de ira que, nessas condições, não se importará que ele o faça... De um lado o senhor das trevas, de outro o senhor da luz mas a quem temos que ser tementes...
A Bíblia passou a ser adotada como um manual religioso, uma espécie de código do bem e do mal, interpretado ipsis literis e sem direito a que se disseque seus simbolismos e seu conteúdo místico e metafísico.
Há pessoas que, deixadas sós, ouvem melhor a revelação que lhes vem de dentro, não perturbadas pelas vozes que chegam de fora e que lhes obstruem os canais da percepção; por isso que o santuário interior é ainda o melhor templo, que deveria ser mais frequentemente visitado.
Uma missa não é uma manifestação cultural, portanto não precisa ser romana ou ser afro, segundo tradições deste ou daquele povo. A igreja não tem que ser seguidora de costumes, ela deve indicar caminhos que conduzam justamente à mudança de costumes, ao despertamento. Mas se a meta é angariar fiéis, no sentido meramente estatístico, então todos os métodos são válidos.
À guisa de expulsar demônios (em verdade fraternos nossos em deploráveis condições), as igrejas não sabem com o que lidam e na verdade promovem sessões espíritas em seus programas na tevê, dentro dos templos, nas matas, mas não tendo o conhecimento daqueles mais experimentados, causam alívio para alguns mas não eliminam o mal, porque aqueles infortunados seres não vão embora mas apenas se afastam momentaneamente, e retornam, mantendo-se presentes em outras circunstâncias, porque não recebem a caridade da orientação para conscientizar-se da condição em que se encontram. Essas práticas mal conduzidas libertam um, mas não libertam o outro.
As igrejas tradicionais sempre se recusaram a aprender sobre o transcendente, preferindo (caso das igrejas evangélicas) colocar aquilo que desconhecem, ou lhe é proibido pesquisar, na vala comum das forças demoníacas. Se é o mal que chega, então é coisa do demônio explícito; se é o vislumbre de um bem, então é coisa de demônios travestidos de anjos, portanto enganadores... Não há como escapar. Já a Igreja Católica prefere atribuir essas coisas estranhas ao puro fenômeno parapsicológico e deixa que o padre Quevedo resolva... Se for algo incontestável, que acontece com um dos seus, então é o milagre e aí começa o processo de beatificação e santificação... Nada é aceito como um fenômeno natural, embora o Mestre tenha ensinado: O que faço vós também o fareis, e ainda melhor. Esta parte do Evangelho é convenientemente esquecida nos sermões, porque levá-la adiante sugere entrar pelos portais do esotérico e das potencialidades ilimitadas do homem, e aí dá trabalho ter que pensar e exercitar, ou responder se algum fiel perguntar...
As igrejas tradicionais vieram alterando suas formas de evangelização, porém não têm produzido muito mais do que fiéis conformados, indiferentes, alguns; outros entusiasmados e fanatizados, a ponto de importunar os que não querem ouvi-los ou ousem contestá-los; ambos nada conscientes de sua origem divina, que pré-existe, de sua missão terrena, de sua espiritualidade, de sua grandiosa dimensão cósmica. Poucos os conscientes e serenos.
Os novos ensinamentos que fluem em todos os cantos nesta nova era que floresce, ditados pelos mesmos antigos mestres, já seriam suficientes para se editar um Novíssimo Testamento, a complementar (e melhor explicar) os existentes. Estes ensinamentos, sim, as igrejas deveriam recolher, como preciosos tesouros para a obra da nova evangelização e da recondução do homem aos caminhos de seu grande destino.


