A semana passada foi marcada por fortes lembranças. Em pensamento revi grandes companheiros, como o ‘‘Magrelo’’, Bia Helena, Malú e o muito querido ‘‘Chiquinho Enciclopédia’’, todos militantes do movimento estudantil da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, em plena ditadura militar.
Além das agradáveis memórias desses companheiros de lutas, jovens e idealistas, fui obrigado a lembrar-me das coisas ruins da ditadura, pois ao entrar em uma universidade para esclarecer os alunos sobre o momento político atual, o plebiscito da dívida externa e o que se pretende, fui retirado do câmpus acompanhado por dois vitaminados seguranças que me escoltaram até a saída da instituição, numa flagrante demonstração de truculência desnecessária que imediatamente fez-me experimentar um ‘‘déjà vú’’ do dia em que milhares de jovens estudantes, dentre eles os já citados e eu apanhamos da Polícia por estarmos cantando o Hino Nacional Brasileiro em frente ao histórico prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE), em protesto contra a demolição do mesmo no Rio de Janeiro.
A última ditadura militar do Brasil instaurou regulamentos severos em relação à participação política nas universidades. Naquela época existiam soldados à paisana nas escolas com objetivo único de infiltrarem-se nos movimentos estudantis, prendendo e torturando seus integrantes para que fossem eliminadas todas as lideranças que visassem o aculturamento e a politização do povo.
Artistas foram caçados e expulsos do País, políticos contrários ao regime foram brutalmente arrancados de seus lares e mortos, sendo que de alguns deles sequer as ossadas foram encontradas para devolução dos despojos às famílias enlutadas. Alguns filhos inconformados procuram os pais até hoje, não esquecendo as mães que choram suas irreparáveis perdas.
Sobre uma página repugnante de nossa história repousa escrito o Ato Institucional 5, que retirava todos os direitos constitucionais dos cidadãos e permitia ao governo prender ou cassar direitos políticos de quem ele julgasse inconveniente ao regime. Isso para não falar na implantação de censura prévia aos meios de comunicação. Lia-se o que queriam, falava-se o que queriam e no momento que os governantes queriam.
Provavelmente enquanto aqueles dois truculentos seguranças, filhotes da ditadura e de um arremedo de ditador que terá o mesmo fim de tantos outros – o desprezo de uma opinião pública esclarecida – estavam brincando em seus carrinhos de rolimã, os estudantes daqueles tempos românticos já possuíam opinião formada e lutavam pelo que acreditavam ser um futuro melhor para a Nação. Não fossem essas pessoas ainda hoje retiradas a força, muito provavelmente o mal que foi a ditadura persistiria até a atualidade.
Em relação a universidade, cuja função primordial de educar e preparar pessoas mais esclarecidas e politizadas para garantir um futuro melhor à tão sofrida Nação brasileira se traveste na atual forma retrógrada de capacitação de seus alunos, isolando-os do que realmente interessa, não haverá segurança por mais forte e truculenta que possa ser contratada, que a livrará dos tentáculos destruidores das avaliações do MEC.
De qualquer forma, como sempre vejo as coisas pelo lado positivo, agradeço aos seguranças e à universidade que os sustenta a oportunidade de relembrar pessoas puras e de bom coração, que se envolveram e se insurgiram mesmo com risco de vida, com o único intuito de lutar pelas gerações futuras de um país melhor. E como dizia outro ícone desses anos de chumbo, Ibrahim Sued: ‘‘Os cães ladram e a caravana passa’’, resistindo até hoje o prédio da UNE enquanto a ditadura já faz parte das lembranças mais tristes e amargas das pessoas que a viveram.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas, professor universitário, consultor e conselheiro de empresas em Londrina
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