Os brasileiros em Timor - Miguel Ignatios
Os brasileiros em Timor
Miguel Ignatios
A ida dos 51 militares brasileiros para Timor merece uma reflexão sobre a disparidade entre a vontade do País de tornar-se uma potência mundial e aquilo que, de fato, tem feito para merecer tal status. Assim como a China e a Índia, onde se concentram mais de dois terços da humanidade, motivo por si só suficiente para que sejam consideradas potências mundiais, nosso País, pelo seu território, do qual mais de 60% pertencem à Amazônia, a maior reserva de biodiversidade do Planeta, também é membro nato desse fechado clube. Por isso, nem mesmo a prolongada crise de duas décadas, a de 80 e a de 90, sem ter registrado qualquer crescimento significativo em seu PIB, à exceção do quimérico Plano Cruzado, em 1986, pode justificar o envio de apenas 51 brasileiros para a ex-província da Indonésia.
A política externa brasileira em relação às nações da comunidade lusófona tem sido sistematicamente atropelada por prioridades mais urgentes internas (os sucessivos planos de estabilização até o Real) e externas (Mercosul, crises asiática e russa, Alca e União Européia). Ela começou, timidamente, em meados da década de 70, com a derrocada do império colonial português no continente africano. Naquela época, contudo, o País estava empenhado na dura tarefa de administrar a abertura política e a anistia.
O mundo lusófono é o nosso mundo, declarou o presidente FHC, uma semana após a partida dos brasileiros que integram a missão da ONU em Timor, numa tentativa de recolocar, duas décadas depois, as relações do Brasil com os demais membros da comunidade de expressão portuguesa entre as prioridades do Itamaraty. Não será fácil recuperar o tempo e o espaço perdidos.
Alguns exemplos ilustram melhor as dificuldades que aguardam a diplomacia brasileira. Moçambique, há alguns anos, filiou-se à comunidade britânica, sem nada ter em comum com ela. Guiné-Bissau enfrentou, recentemente, uma rebelião que pretendia, dentre outras coisas, levar esse pequeno país da costa ocidental africana para a comunidade francófona.
Em meados da década de 90, quando a guerra civil de Angola se agravou de forma irreversível, nossos diplomatas deixaram escapar a ocasião única e histórica de convidar Mandela, o carismático líder e então presidente sul-africano, para negociar a paz. Brasil e Portugal poderiam ter pedido à África do Sul que levasse a questão para ser debatida no âmbito da Organização da Unidade Africana e mediada pelo hábil Mandela. Talvez isso ainda seja possível hoje.
Mais recentemente, nossa diplomacia subestimou a evolução da crise na Indonésia e não se aproximou da Austrália, Portugal e da ONU, na mediação do conflito entre os indonésios e os timorenses.
Se o País quiser, daqui para frente, identificar-se mais com a comunidade lusófona, será necessário empenhar-se bem mais do que tem feito até agora. Afinal de contas, no linguajar usado pela diplomacia mundial, o Brasil é classificado como um país-baleia (para onde for levará consigo vários outros). Ou seja, juntamente com a China, a Índia, a Rússia, o Canadá e a Austrália, ele é capaz de desestabilizar o precário equilíbrio do xadrez político internacional. É preciso, portanto, agir mais nos organismos multilaterais para fazer valer tal condição e ocupar a posição de destaque que é justa e indelegável.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)





