Os B.O's. da política - René Ruschel
Os B.Os. da política
René Ruschel
Em depoimento à CPI dos medicamentos, em Brasília, um empresário curitibano revelou que a máfia da indústria farmacêutica tinha um codinome próprio para enganar os milhões de brasileiros nas compras de remédios: B.O. Ou seja, bom para otário.
Trata-se das posologias químicas sem nenhum valor terapêutico cujo objetivo é exatamente roubar o povo para encher às burras dos fabricantes. A partir da sucessão de escândalos e falcatruas políticas que têm vindo à tona nos últimos tempos ficamos questionando se os nossos homens públicos com raras e honrosas exceções imaginam que, de fato, somos um bando de otários.
A mais recente manifestação de escárnio ao povo brasileiro deu-se com as declarações da Sra. Nicéa Pitta sobre o envolvimento de seu marido, Celso Pitta, prefeito de São Paulo, em corrupção deliberada na compra dos votos de vereadores, na locupletação generalizada de proprinas e assalto aos cofres públicos.
Pior: por tratar-se de uma das maiores cidades do mundo, com o terceiro maior orçamento da União, o saldo destes valores poderá atingir a bilhões de dólares e com ramificações que ultrapassaram os limites do palácio das Indústrias, sede do governo local. Assim, por uma questão lógica e racional, qualquer cidadão medianamente dotado pode avalisar que recursos desta monta não tomariam o rumo de contas bancárias no Brasil ou no exterior, particulares ou de empresas, sem o aval ou aquiescência de altos figurões da pátria verde-amarela.
Diante disso, é difícil avaliar ou mesmo compreender como nós, brasileiros, conseguimos conviver quase que harmonicamente com tamanha corrupção em todos os níveis da vida pública nacional. Será que somos demasiadamente apáticos? Será que não há uma saída pacífica e legal para mudar este estado de coisas?
Nos ensinaram por muitos anos, principalmente às gerações pós-64, que a democracia era o caminho adequado para as transformações que tanto ansiávamos pela longa noite da ditadura militar. A democracia chegou mas a corrupção continua latente e impune, como antes. A diferença fundamental é que agora sabemos de sua existência.
A democracia, sem dúvida, é uma condição necessária para buscarmos soluções que alterem esta prática tão nefasta e incrustada há décadas na vida pública brasileira. Mas, por si só, não chegará a lugar nenhum. Em paralelo, será preciso vontade política e decisão firme daqueles que dirigem a Nação.
Vivemos no País das CPIs, sejam elas de anões, orçamento, precatórios, narcotráfico, quando verdadeiros absurdos são constatados, mas poucos são punidos. São os mais diversos tipos e maneiras de fraudes e roubos sem resultados práticos; quando muito, alguns raias miúdas acabam mofando num xadrez qualquer em nome da moralidade e justiça.
Vivemos no Brasil um processo de causa e efeito: os políticos querem mudanças desde que não se altere o status-quo; mas para haver mudanças de fato é preciso romper com o status-quo. Então, o melhor é praticar a regra do deixa estar para ver como é que fica. Enquanto isso, a miséria social campeia por todos os rincões da pátria amada. Só para se ter uma idéia desta mazela, às falcatruas supostamente cometidas pela administração Celso Pitta segundo avaliações ainda preliminares são muito superiores ao orçamento total da saúde no município de São Paulo.
Nós, os milhões de brasileiros, não somos nem de longe um bando de otários os B.Os. da política. Somos, sim, vítimas de uma classe política incapaz de sensibilizar-se ante o drama do desemprego, de fome, da violência, da falta de saúde pública, de educação básica e fundamental a milhões de crianças, sem falar na secular miséria total e absoluta que impera em todo o nordeste brasileiro.
O único caminho disponível para romper com o status-quo está na organização da sociedade em seus diversos segmentos. Por mais tímido que possa parecer este movimento, ele deve começar em cada cabeça, em cada consciência, em cada gesto e cada palavra.
Em São Paulo, os cara-pintadas voltaram às ruas e começaram a lavar a calçada defronte da prefeitura e da Câmara de Vereadores. Seria muito bom se cada brasileiro, a exemplo do provérbio chinês, iniciasse a limpeza dentro de sua própria casa.
- RENÉ RUSCHEL é economista, graduado e pós-graduado pela UFPR.





