Os bebês da mídia
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de abril de 1999
Joel Samways Neto 
Os meios de comunicação de massa foram inventados, certamente, para serem ferramentas do bem. O problema são as ideologias de quem os gerencia, administra, manipula. Decerto, os pensadores que prepararam a mentalidade que construiu a mídia não pensavam noutra coisa a não ser integração humana. Na observação de Marshall McLuhan, esses meios (TV, rádio, revista, jornal) seriam a extensão do sistema nervoso do ser humano. Nosso cérebro estaria plugado, ligado, na rede, estimulado por todos os acontecimentos mundiais - sendo que, depois do satélite, em tempo real. Tenho certeza de que a mídia veio para educar e unir os habitantes deste planeta.
Acontece que os meios de comunicação estão repletos de contradições - aliás, como quase tudo o que o homem inventa, cria, descobre ou inova. Para existir, a mídia precisa de recursos, precisa de dinheiro. E vai buscá-lo onde tem, no mercado - onde o dinheiro não aparece de graça, mas sob forma de investimento, mediante contrato no qual o investidor quer garantir sua contrapartida, seu lucro. Daí, a mídia que tinha vindo para educar teve que se prostituir para sobreviver. Porque educação não rende lucro a curto prazo, e também não prende o interesse do destinatário da mensagem massificada, vulgo consumidor.
Resultado: temos uma mídia vacilante entre o bem e o mal (claro, com direito a relativizar a afirmação. Bem para quem?, Mal para quem?). Exemplo disso é o telejornal que noticiou o problema brasileiro da gravidez na infância e adolescência. Em 1998, segundo dados levantados apenas junto aos hospitais públicos, foram feitos 36 mil partos em crianças com idade variando entre 13 e 14 anos; e 750 mil em adolescentes de 15 a 17. E noticiou, também, as tendências da moda, com cortes profundos deixando à mostra corpos insinuantes. Ou o lançamento do último CD de um grupo de pagode, com takes do videoclipe - em que louras e morenas rebolam, rebolam, numa suposta dança primitiva que lembra bem algum daqueles rituais de acasalamento. E o clima é de total aprovação estética. Tanto que, depois, programas de variedades irão reproduzir quadros de clones desses modelos, na versão infantil e infanto-juvenil.
Que dizer dos programas vespertinos, os tais que, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, só deveriam conter conteúdos pedagógicos voltados para a formação do caráter do público dos sub-18? Tirando a sobriedade responsável dos programas feitos pelas TVs educativas, todos os programas desse horário têm algum tipo de apelo erótico, sexual, principalmente as telenovelas.
Claro que essa contradição não é privilégio só da televisão. Programas de rádio batem recordes de audiência devido à linguagem chula, marota, azarando com os ouvintes, seja em narrativas de romantismo babado, folhetinesco, seja em besteirol e trocadilhos picantes. E quais são as músicas mais tocadas? As que tratam de comportamento sexual liberado.
E o sol nas bancas de revista? Praticamente todas trazem mulher na foto da capa, mais despida, menos despida, inclusive as que nem sequer são especializadas no assunto - mas é que se não fizerem isso, não vendem. As especializadas que, antigamente, ficavam embaladas dentro de sacos plásticos opacos, hoje só falta serem expostas penduradas pelo pôster.
Tem mais. Basta olhar os outdoors, nas ruas - talvez uma mídia menor, porém não menos eficaz - o apelo do corpo nu, em posições provocantes, é o campeão de permanência. Por esse mundo da sociedade de consumo transitam as crianças e adolescentes brasileiros. São incentivados por todos os sentidos físicos à prática sexual precoce. Justamente na fase da vida em que se encontram mais despreparados para isso, alimentados que estão de preconceitos e mitos. Isso não é fazer pregação moralista nem defender a volta da censura. Muito menos se está dizendo que a mídia é a única causa da gravidez precoce. O que se quer é propor uma discussão consequente, aberta à sociedade, chamando cidadãos e autoridades constituídas para refletir sobre a necessidade de se estabelecerem limites. Essa mesma mídia que ajuda no incentivo à maternidade infantil e infanto-juvenil obviamente não tem interesse em divulgar a tragédia pessoal, familiar, que é uma criança brincando de boneca com o próprio filho. Quando a mídia toca no assunto, toca de leve, rápido o bastante para que não se possa pensar no assunto.
Enquanto isso, enquanto o mercado e os donos da mídia ficam satisfeitos, os efeitos têm de ser sofridos e administrados pelas vítimas do processo cultural-industrial que eles impõem.


