Os atletas químicos
Há uns dois anos, caíram mortos, em plena corrida, dois dos cavalos que competiam no Palio. Um era Pena Branca, o campeão da festa que é comemorada, desde a Idade Média, na grande praça da cidade de Siena. Os cavalos morreram vítimas de overdose de anfetaminas. Entretanto, em outros lugares da Itália, foram presos 20 proprietários de pitbulls que eram as estrelas das brigas clandestinas de cães. Os cães-boxeadores estavam dopados. Os esteróides anabolizantes haviam multiplicado sua musculatura e energia.
Ao mesmo tempo, o promotor Rafaele Guarinello colocou no banco dos réus os clubes de futebol da primeira, segunda e terceira divisões: os clubes haviam ministrado a uma centena de jogadores, com supostos fins medicinais, medicamentos que, na realidade, serviam para aumentar artificialmente a resistência e a potência e para mascarar o cansaço causado pelos torneios extenuantes. Comprovou-se que os controles antidoping eram malfeitos ou desapareciam como por milagre. Um ano antes, em meados de 1998, o diretor técnico do Roma, Zdenek Zeman, havia denunciado que as drogas eram de uso frequente no futebol italiano.
Enquanto essas notícias eram publicadas, no país vizinho era disputado o Tour de France, e os ciclistas avançavam esquivando seringas. Michel Drucker, jornalista esportivo, comentou: Estamos em plena hipocrisia. Qualquer um sabe que é impossível suportar, com um tubo de vitamina C, uma corrida após outra: o Clássico belga, o Paris-Roubaix, o Milão-San Remo, o Tour de France e a Volta da Itália. E o mesmo vale para todos os esportes. Sobre as costas dos atletas profissionais pesa o dinheiro dos patrocinadores.
João Havelange, monarca aposentado da Fifa, advertiu: Todos os ciclistas se dopam. Mas, no futebol, isso é raro. Deixem em paz o futebol. Não partilhavam dessa opinião dois astros da seleção francesa campeã do mundo. Emmanuel Petit declarou: Joga-se uma partida a cada três dias. Nenhum atleta pode suportar tanto esforço. Não quero que as drogas sejam coisa cotidiana no futebol, mas, caminhamos para isso. E Frank Leboeuf completou: Agora, os jogadores se queimam cedo. Preocupo-me com os jovens. Neste passo, não vão durar mais do que cinco ou seis anos.
Alguns anos antes, o famoso goleiro Toni Schumacher fora acusado de traição à pátria quando revelou que os jogadores da seleção de seu país eram farmácias ambulantes e que não se sabia se representavam a Alemanha ou a indústria química alemã. E, do outro lado do Atlântico, Luis Artime, um dos melhores jogadores de todos os tempos, havia comprovado: A droga é um negócio em todos os esportes, e no futebol também. O futebol argentino não me dá nojo, me dá pena.
Penso, ainda que mal pensado, no joelho de Ronaldinho, o joelho de vidro do melhor jogador do mundo. Ronaldinho recuperará seu joelho perdido? Voltará a ser Ronaldinho? Imagens: o ídolo cai, agarra o joelho direito, as câmeras dão um close na expressão de dor em seu rosto. Imagens: seis anos antes, chega à Europa um rapaz com dentes de coelho e magia nas pernas, saído de um subúrbio pobre do Rio de Janeiro. Chega magro como um arame. Imagens: um par de anos depois, já transformado em negócio milionário, Ronaldinho parece o Tarzã. O dobro de musculatura para os mesmos tendões; o dobro de carroceria para o mesmo motor. E, me pergunto: esta assombrosa metamorfose explica-se apenas pela carne que comeu e pelo leite que bebeu?
As drogas burlam os controles. Muito poucos atletas foram pegos nos exames antidoping, no ano passado, nas Olimpíadas de Sidney. Jacques Rogge, um dos dirigentes do Comitê Olímpico Internacional, deu a seguinte explicação: Caíram porque foram estúpidos, porque se doparam por conta própria ou porque vêm de países pobres. Os países ricos têm um sistema sofisticado de dopagem, que custa muito dinheiro, com drogas caras, supervisão especializada e checagens secretas. Os pobres não podem pagá-lo. É simples assim. O Comitê Olímpico Internacional consagrou Carl Lewis como o atleta do século. Em Sidney, durante a cerimônia, o rei da velocidade e do salto em distância expressou sua opinião, um pouco diferente: Os dirigentes mentem. Os controles antidoping não funcionam. Eles podem controlar, mas não querem. O esporte está sujo, afirmou Lewis.
Seja como for, por habilidade científica ou por vista grossa, ou por obra e graça dos dois, o fato é que resulta perfeitamente possível mascarar a eritropoeitina sintética, os hormônios artificiais para crescimento, os esteróides anabolizantes e outras drogas. Aplicadas maciçamente aos esportistas, podem produzir medalhas de ouro, troféus internacionais, infartos, apoplexias, alterações do metabolismo, transtornos glandulares, impotência, deformações musculares e ósseas, câncer ou velhice prematura.
Segundo as pesquisas publicadas pelas revistas Scientific American e New Scientist, tudo isto não é mais do que um jogo de criança comparado com o que está por vir. Anuncia-se que, em dez anos, teremos atletas geneticamente modificados. Ao preço da hipoteca do corpo, porque nada vem de graça neste mundo, o doping de genes artificiais fará maravilhas de velocidade e força com uma única injeção, e será impossível descobri-lo no sangue ou na urina.
Por estes dias, meu amigo Joge Marchini, recém-chegado da Finlândia, trouxe-me de presente o regulamento do futebol infantil e juvenil nesse país. Assim, fico sabendo que na Finlândia o árbitro não mostra apenas o cartão amarelo, que adverte, e o vermelho, que pune, mas também mostra o cartão verde, que premia o jogador que ajuda um adversário caído, que pede desculpas quando faz falta e que reconhece uma falta cometida.
No futebol profissional, tal como praticado hoje em quase todo o mundo, isto de cartão verde pareceria ridículo ou resultaria inútil. Por lei do mercado, a maior rentabilidade exige maior produtividade, e, para consegui-la, vale tudo: deslealdade, armadilhas e drogas, que fazem parte do jogo sujo de um sujo sistema de jogo.
No futebol, como em todo o resto, o esporte profissional está mais dopado do que os esportistas. O grande intoxicado é o esporte transformado em grande empresa da indústria do espetáculo, que acelera mais e mais o ritmo de trabalho dos atletas e os obriga a esquecer qualquer escrúpulo para alcançar rendimentos de super-homens. A obrigação de ganhar é inimiga do prazer de jogar, do sentido de honra e da saúde humana.
E a obrigação de ganhar que está impondo o consumo das drogas do sucesso. Há meio século, o Uruguai venceu o Brasil no Maracanã e se consagrou, contra todas as previsões, contra toda a evidência, campeão mundial de futebol. O principal protagonista dessa façanha impossível chamava-se Obdulio Varela. Ele se dopava com vinho. Era chamado de Vinacho. Eram outros tempos.
- EDUARDO GALEANO é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo (IPS)





