Os amigos do rei
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de novembro de 2001
Luiz Geraldo Mazza 
Não há governo que não tenha clientelas preferenciais. E as gestões de Jaime Lerner, tanto na prefeitura três vezes, como no Estado em duas, revelou que essa malha de solidariedade varia pouco e é permanente. Por exemplo: um dos pontos mais enfocados no ''desmanche'' da Copel com numerosos contratos, hoje contestados na Justiça, em que a estatal aparece como minoritária, é a DGW do mesmo consórcio da Tradener, pertencente a Donato Gulin, que já foi presidente da Câmara Municipal e deputado estadual, como o seu parente mais velho Alfredo.
Essa família tem o filé mignon do transporte coletivo de Curitiba por dominar o eixo principal que liga a zona norte à sul. Os Gulin tinham apenas o domínio da zona norte até que adquiriram o controle da Viação Redentor, que era de Ciro Frare, aquele empresário que bateu em Requião em Londrina. Frare tinha a concessão de veículos em Itaipu e seu irmão, Celso, como dirigente da Ouro Verde, cuida do sistema em Curitiba, aquele da ''terceirização'' de carros.
Há empresários que se dão bem em vários governos como Darci Fantin da DM, hoje beneficiário também de um desses contratos da Copel. Aliás ele acabou ganhando ''status'' de barrageiro no governo Alvaro Dias na sequência daquela bronca por causa de Segredo junto com a Cesb e a Sinoda e que neutralizava os interesses de Cecílio Rego Almeida. Fantin, antes dessa ascensão toda, era dedicado a tarefas de paisagismo nas represas. Foi sócio da Habitação de Canet Júnior e chegou a tocar a fábrica de ''Cieps'' na Cidade Industrial e teve como seus dirigentes o atual diretor da Itaipu, Euclides Scalco, e o ex-ministro Deni Schwartz.
UMA ROTINA Isso é normalíssimo. Protegidos há em todos os níveis de governo, do estadual ao federal passando pelo municipal: empreiteiros, prestadores de serviço, bancos, enfim todo o universo operacional que gira em torno do poder em busca de concessões, permissões e contratos. Um grande negócio, não tanto quanto o da Copel, foi o das concessões de rodovias para explorar o pedágio. É difícil acreditar que haja observância dos rigores do Código de Contabilidade Pública nesse festival. O Tribunal de Contas passa ao largo como se viu nos episódios hediondos, ainda não totalmente explicados, de Londrina e Maringá.
Há quem argumente que quando grupos do Paraná são beneficiados a orientação é válida, o que é discutível se prevalecer esse paradigma de raiz. Tal se discutiu quando da licitação de Segredo, na qual, na parte relativa ao desvio do rio, a CR Almeida, ainda que colocada em quarto e último lugar, ficou com a obra depois de uma pendência na Justiça Federal. Logo depois o governador Alvaro Dias, no velho estilo moralista, denunciou a formação de cartel na continuidade da concessão e entregou a obra a um consórcio paranaense. A CR Almeida brigou na Justiça e recentemente o governo Lerner, alegando que havia todas as condições para perder a demanda, fechou um acordo pagando R$ 90 milhões, o que, na prática, tornou inócua a resistência de Alvaro Dias.
O SIGILO Felizmente, hoje, a sociedade paranaense é ''complexa'', daí as possibilidades de interesses contrariados aflorarem. No primeiro governo de Moisés Lupion o que predominava era o negócio de terras como resultante de um território por ocupar. Um dos grupos beneficiários, por ter ganho a concessão da auto-estrada Curitiba-Paranaguá, era o de Lisímaco Ferreira da Costa, que era um ganho de autonomia em relação a empreiteiras nacionais. Já no governo Munhoz da Rocha o que poderia ter sido um negócio gigantesco foi a construção das obras do Centenário, especialmente do Centro Cívico. O empreendimento era de tal vulto que se fez um acordo com entidades da construção civil no sentido de manter o setor atendido pela mão-de-obra disponível, enquanto o relativo às edificações e obras civis (Palácio Iguaçu, Legislativo, Tribunal do Júri, Palácio das Secretarias, Biblioteca Pública, Teatro Guaíra, Grupo Tiradentes, Praça 19 de Dezembro, etc) ficaria a cargo de trabalhadores importados, mormente do Nordeste. Quando decidiu construir o Centro Cívico Bento reuniu seus familiares (os clans Munhoz da Rocha e Camargo), falou de sua localização e os proibiu de comprar qualquer fração de terreno na região, dizendo que se o fizessem os denunciaria. Diferente de agora, né?
Com todas as cautelas de sobriedade, o complexo das obras foi explorado à exaustão pelos oposicionistas. A mudança era tão grande que a região vai descobrir e explorar suas reservas de mármore nessa época. Havia crítica pesada do interior, mas Munhoz da Rocha obteve um feito simbólico: a ligação asfáltica de Londrina-Cambé num tempo em que a matéria-prima era importada e como um sinal de coroamento da rodovia para o norte, cuja infra-estrutura foi praticamente concluída. Tanto que Lupion terminou a ligação Curitiba-Ponta Grossa que seu sucessor, Ney Braga, tentou arrebatar com os acabamentos como se a tivesse concluído.
ANALOGIA É impossível comparar padrões dessas décadas referidas com os de agora por um detalhe elementar: a mudança extraordinária que viria após os feitos revolucionários de Ney Braga em todos os campos, mormente nos da infra-estrutura econômica (transportes, energia). Amigos do rei sempre existiram e existirão, o que não deve ser olhado com restrição, desde, é lógico, que haja um mínimo de respeito a regras do controle da gestão, o que, infelizmente, não ocorre. Há atitudes audaciosas como a de Cecílio Rego Almeida que assumiu, com recursos do exterior, a construção da Estrada de Ferro Central do Paraná entre Ponta Grossa e Apucarana. A obra, tocada pela Bygton, em ritmo lento, foi abandonada e Cecílio a assumiu, é claro com a indispensável cobertura política. O desmanche estatal do momento (Banestado, Copel, Sanepar) é um novo momento e que beneficia também grupos que gravitam em torno do poder, tanto na fase preliminar como na futura.
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