No desenlace de um filme fantástico dos Irmãos Taviani - Caos -o escritor Pirandello faz uma visita à fazenda em que nasceu, no Sul da Itália, e conversa com o fantasma da mãe, com quem deplora sua angústia de perceber tanto - mais do que os outros - sobre a natureza humana.
Confesso que tenho o sentimento pirandelliano, ao ler, pela segunda vez, na revista ‘‘Time’’, sobre o caso da professora Mary LeTourneau, sem ver repercussões indignadas por toda a parte. Como se eu fosse a única pessoa do mundo...
Os fatos: a professora Mary LeTourneau tem 36 anos, está grávida do segundo filho e está, também, numa cadeia nas imediações de Seattle, EUA, pelo crime de estupro de menor. E de reincidência. O primeiro filho foi-lhe retirado pelas autoridades e ela encara uma condenação de sete anos, que, com as agravantes, pode se estender.
Embora ninguém, a não ser a professora e o seu amante - anônimo e menor de idade - conheçam toda a verdade, o que parece ter acontecido foi o seguinte: há cerca de dois anos, Mary ter-se-ia enamorado de um aluno seu. Ele com 13 anos, ela com 33. O inusitado romance foi denunciado e Mary foi presa, sob acusação de estupro. Foi condenada a uma pena leve - seis meses - e deu à luz um filho, na prisão. Sua libertação foi condicionada a não ver de novo o namorado. Nada feito. Vigiados, os amantes foram flagrados nos ardores da paixão, dentro de um carro estacionado. A professora foi presa de novo, e - desta vez - encara novo julgamento e uma condenação maior por estupro de um menor. E espera um segundo filho. O pai - que deve ter, agora, entre 15 e 16 anos - protesta que ama Mary, não foi estuprado coisa nenhuma e quer estar com sua namorada e, quem sabe, casar-se com ela.
Pois para mim essa história está muito mais para Romeu e Julieta do que para crônica policial.
Sabe-se que os amantes de Verona eram - ambos - menores de idade. Creio que, na peça de Shakespeare, Romeu tinha 15 ou 16 anos e Julieta, 13. Treze anos é a idade do Bar Mitzvah para os meninos israelitas. Os judeus, na sua tal múdica sabedoria, compreenderam que a idade da razão masculina ocorre nessa idade. Mais que isso, porém, o bom-senso indica que a gente é gente grande mais ou menos aos 14 anos.
De fato, o que essa história trágica e triste parece esconder é a ponta do iceberg de uma pilha de preconceitos - que lamentavelmente vicejam na sociedade americana, ao lado de indiscutíveis conquistas no campo dos direitos humanos - daqueles que são camuflados pelo patrulhamento cúmplice da sabedoria convencional.
Vejamos: se Mary tivesse 14 anos e Joseph, ou Tommy, 34, na imensa maioria dos países do mundo as coisas se encaminhariam com muita naturalidade para uma união estável, com a compreensão e o consentimento das famílias e de todos os demais interessados. Tenho um bom amigo, cinquentão, que se casou, faz pouco tempo, com uma mulher de 24 anos com uma grande festa. A diferença de 30 anos (não de apenas 20) é considerada, por alguns, como uma idiossincrasia, mas não como impedimento...
São dois os preconceitos não tão aparentes nesse caso. Um é o anti-feminino. Mary LeTourneau é mulher e não fica bem para uma mulher apaixonar-se por um homem mais jovem. ‘‘Liberdade para as borboletas’’, só como curiosidade sociológica. Na prática, não. O outro é o preconceito milenar e calhorda contra a juventude de modo geral. Já faz muito tempo que a sociedade oprime os jovens - de ambos os sexos - proibindo-lhes viver seus sentimentos e suas emoções, sob pretextos legalísticos ou pela força mesmo.
E a brutalidade com que esse affair - por certo inusitado, mas nunca criminoso - está sendo tratado é de causar revolta e indignação. Além das condenações, o Estado literalmente arranca bebezinhos das mãos (algemadas) de sua mãe legítima. Demais. Onde estão os cidadãos de bem desse mundo? Juntem-se a mim e escrevam para as autoridades do Estado de Washington, EUA. Reclamem e digam comigo: Gente, não façam isso. Vocês estão matando, de novo, Romeu e Julieta!
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (Rio de Janeiro)

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