Os aeroportos brasileiros
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de setembro de 2001
Fernando Perrone 
Nos últimos dias, a imprensa de modo geral, como acontece com fatos que geram comoção, como os atentados nos EUA, elegeu como pauta principal a segurança nos aeroportos brasileiros. O que se viu em muitos enfoques foi uma primeira confusão entre segurança de vôo, que envolve o espaço aéreo e operações no aeroporto e a segurança do próprio terminal, especificamente quanto ao acesso e revista de passageiros ou a medidas preventivas nas dependências do aeroporto. De outro lado, também, algumas pessoas aproveitaram-se para tirar proveito político, criticando a segurança dos aeroportos brasileiros, com uma dose maior de corporativismo do que de análise técnica.
Não existe segurança absoluta. É impossível cobrir com 100% de eficiência todos os riscos. Por isso, é necessário, antes de decidir que medidas de proteção devem ser adotadas, identificar os riscos que se corre ou os riscos prováveis. Sempre haverá uma proporção entre segurança e ameaça.
Os atentados nos EUA foram cometidos com aviões sequestrados de duas das maiores companhias aéreas do país, a partir de três dos principais aeroportos, localizados nas mais importantes cidades. Até então, não era provável o risco de sequestradores suicidas, em grande número, detentores de conhecimentos técnicos avançados, assumirem o comando de aeronaves sofisticadas, no espaço aéreo mais protegido do mundo e se atirarem sobre prédios no coração da economia e da defesa americanas.
Os sistemas de segurança mostraram que não são 100% eficientes e que estavam dimensionados para outros níveis de ameaça. Agora, discute-se como aprimorar os sistemas existentes para que sejam mais eficientes e que outras medidas de proteção devem ser adotadas para a nova ameaça. Os EUA têm inimigos dispostos a tudo e, por essa razão, precisam de proteção proporcional às ameaças. Os seus investimentos em defesa, que já são altíssimos, subirão ainda mais.
E o Brasil, que ameaças sofre? Que medidas proporcionais deve adotar? É nesse cenário que a imprensa tem discutido se os nossos aeroportos são seguros. Primeiro, convém esclarecer que uma coisa é a proteção ao vôo, por meio de equipamentos e pessoas treinadas, atribuição da Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Vôo (DEPV), órgão do Comando da Aeronáutica. Outra coisa é a segurança no aeroporto (security), que envolve uma série de procedimentos e equipamentos, que, em absoluto, limitam-se à simples triagem dos passageiros.
A Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), que administra 65 aeroportos no País, responsáveis por 97% do tráfego, tem entre suas funções uma parte da segurança nos aeroportos, em conjunto com a Polícia Federal. E vem exercendo essa junção com padrões semelhantes aos dos aeroportos de países mais avançados. São grandes investimentos feitos com recursos próprios, em pessoas e equipamentos e que se têm mostrado eficientes.
Aproveitar o momento para fazer matéria-espetáculo com a pseudo falta de segurança dos nossos aeroportos, relacionando nosso nível de proteção com os atentados nos EUA, se não for má-fé e ignorância, é um desserviço, porque cria um alarmismo desnecessário.
Em 2000, a Infraero processou 2,1 milhões pousos e decolagens nos 65 aeroportos. Este ano, até julho, já foram feitas 1,264 milhão de operações. Não houve qualquer ocorrência que colocasse a vida dos passageiros e tripulantes em risco. Exceto no caso do assalto ao avião da Vasp, no Paraná, quando a arma da quadrilha não passou pelo detector de metais que estava em operação no aeroporto de origem, e os ladrões levaram o malote do compartimento de bagagem, abandonando o avião. No Brasil, a ameaça é o crime patrimonial. São os ladrões, que não querem morrer, mas melhorar de vida.
Querer transformar os aeroportos brasileiros em uma fortaleza ou estimular um estado de tensão, apenas porque se acredita que um aparelho de raio X resolveria tudo, é simplificar uma ação, que não é a mais importante e nem se esgota na simples checagem da bagagem de mão.
A segurança dos aeroportos envolve toda a comunidade aeroportuária, principalmente as companhias aéreas e empresas que operam nos pátios ou estão instaladas no terminal. Tem a ver com identificação e credenciamento de passageiros e empregados; rigor nos acessos a pátios, pistas e aeronaves, por parte de pessoas que ali prestam serviço; implica instalação de câmeras nas dependências dos terminais; fiscalização em todos os compartimentos do aeroporto, verificação de bagagens de mão etc.
Enfim, é uma série de procedimentos que visa a dar tranquilidade aos passageiros para embarcar e às empresas para operar as aeronaves com segurança. O resultado desse trabalho, que não envolve só a Infraero, mas vários órgãos federais e estaduais, tem permitido um nível de segurança adequado ao padrão de ameaça a que o País está submetido.
Como o Brasil não sofre o mesmo nível de ameaça que outros países, isso no que diz respeito à competição acaba sendo um diferencial a nosso favor. Por isso, nós não precisamos fazer o que os EUA fazem, até porque com toda a sua eficiência, mostraram sua vulnerabilidade.
O que nós precisamos e iremos fazer é contribuir com a necessidade de os EUA se protegerem cada vez mais, aumentando as medidas de segurança nos aeroportos que têm vôos para aquele país. O resto é uma discussão oportunista por parte de uns e sensacionalista por parte de outros. Nenhuma procurou analisar o problema na sua verdadeira dimensão.
- FERNANDO PERRONE é presidente da Infraero


