Os 75 anos de uma causa santa
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sábado, 07 de setembro de 2019
Espaço Aberto 
A Segunda Guerra iniciava a fase final, com o desembarque dos Aliados na Normandia três meses antes, os pracinhas brasileiros entrariam em combate na Itália uma semana depois, mas naquele 7 de setembro de 1944 os londrinenses relegaram o conflito mundial para festejar a inauguração da Santa Casa, que teria missa, carreata, queima de fogos e acesso liberado a suas instalações, mesmo com alguns pacientes internados, mesmo que a obra não estivesse concluída – o que, 75 anos depois, ainda não aconteceu, pois o hospital não para de se expandir.
A obra rivalizava em imponência com a igreja matriz, cujas torres haviam sido concluídas um ano antes: a igreja em estilo neogótico e voltada para o conforto espiritual, o hospital em barroco alemão e dedicado principalmente aos que não podiam pagar o tratamento. E foi justamente a necessidade de oferecer tratamento médico a quem não podia pagar que mobilizou a população pela construção da Santa Casa. O esforço começou em 1936, dois anos depois da emancipação política do município, com a criação da Sociedade Beneficente de Londrina, dedicada a viabilizar essa aspiração coletiva.
“Nas suas paredes ao menos um grão de areia procede do mais humilde ou mais pobre habitante de Londrina”, afirmou no discurso inaugural o primeiro provedor, José Bonifácio e Silva. Não era mera figura de linguagem. O jornal “Paraná Norte”, envolvido desde o início nessa cruzada, registrava os donativos, entre eles o da “menina pobre”, de dez centavos. E a “Gazeta do Paraná” informaria que, depois de visitar o hospital no dia de sua inauguração, um empresário doou dez mil cruzeiros.
Quermesses na igreja matriz, bailes no “Redondo”, clube criado exclusivamente para arrecadar recursos para o hospital (seria desativado logo depois da inauguração), torneios de futebol, rifas: a caridade, que pressupõe a abnegação, encontrou no lazer e confraternização aliados poderosos para a consumação da obra, indispensável para consolidar o ambicioso projeto de colonização empreendido pela Companhia de Terras do Norte do Paraná. Que, aliás, trocaria de dono no ano da inauguração da Santa Casa: obrigados a contribuir para a guerra contra os alemães, os ingleses a venderam para empresários paulistas, que a renomearam Companhia Melhoramentos Norte do Paraná.
Tudo era superlativo naquele projeto colonizador – da extensão de terras a serem cultivadas (mais de 500 mil alqueires) à necessidade de alimentar, dotar de vias de transporte, comunicação, educação e saúde uma população que crescia espantosamente, atraída pela prodigalidade do solo. As perspectivas eram excelentes, e os desafios de toda ordem. Entre eles, o indispensável cuidado com a saúde, ameaçada pela malária, febre amarela e tifoide, fogo selvagem e acidentes de trabalho, como a picada de animais peçonhentos, esmagamento e amputação de membros, etc.
A Santa Casa foi inaugurada com capacidade para 150 pacientes, acomodados em enfermarias simples (gratuitas), de primeira e segunda classes e “apartamentos especiais”. Vinte e um médicos se apresentaram para trabalhar. Sete décadas e meia depois, ao edifício original foram agregados três outros, sendo que o terceiro está em fase de acabamento, e assimilaram-se dois hospitais: Infantil e Mater Dei. As três unidades oferecem 327 leitos (a ala nova terá 235) e atenderam no ano passado mais de 150 mil pacientes, envolvendo 1,4 mil funcionários e cerca de mil médicos e residentes.
Uma graciosa lanterna octogonal projeta-se no topo do edifício pioneiro, instalada para sinalizar a necessidade da presença urgente de um médico. O passar do tempo a fez obsoleta, mas não confiscou sua importância arquitetônica, que é impor leveza a um conjunto austero. E tampouco seu simbolismo: a união de uma comunidade pelo bem do semelhante necessitado. A mais santa de todas as causas.
JOSÉ ANTONIO PEDRIALI, jornalista, autor de “A Santa luta na nossa Casa”.


