Os 500 anos de um Jeca Tatu - João Moretti
João Moretti
Estamos comemorando a felicidade plena do quinto centenário do Brasil, mas a história traduz nossa memória, baseando-se em fatos que mostram num coletivo as descobertas de povos que vieram até nós para nos transformar em nação independente e soberana. Na busca pelos fatos do passado em décadas que foram apontadas como pontos essenciais ao desenvolvimento, hoje deparamos com manifestações de que o futuro nos será justo, porque somos uma Nação em evidência. A base histórica das décadas de 30 e 40 mostraram o contexto do totalitarismo, pós-guerra, evidenciando a emoção e ao mesmo tempo servindo de subsídio para compreensão futura.
O fato de possuirmos uma sociedade que age e se comporta da maneira atual, como vemos através dos meios de comunicação, simplesmente compactua com o passado reprimido, suprimido por uma cultura mesquinha e deplorável, onde a diferença e o questionamento são coadjuvantes do sistema atual. Os adjetivos que traduzem a comemoração dos 500 anos, neste momento, simplesmente enunciam o próprio presente. O tempo percorrido foi um detalhe diante do barulho, do marketing e da publicidade. O tempo começa a ser contado agora.
É impressionante como muitos historiadores e pseudo-escritores afirmam que o povo brasileiro é extremamente pacífico e gentil, cordial e essencialmente dócil. O questionamento é notório, quando checamos fontes e deparamos com os conflitos que passaram pelos 500 anos, moldando a característica básica e principal deste povo brasileiro.
A predominância de idéias que foram implementadas pela mistura racial, provocou disputas, num modelo que permanece atual às determinadas camadas da sociedade. A área cultural é a que sofre uma metamorfose face ao processo de proliferação de uma comunicação desordenada, sem ética, de modelo importado de outras sociedades, que proporcionaram benefícios a determinados grupos.
Talvez o grande Monteiro Lobato tenha caracterizado muito bem o nosso Brasil, através da figura do Jeca Tatu: mestiço, amarrotado, inculto, doente e exaurido. A semiótica tem um enorme trabalho para exemplificar o nosso Jeca. O desemprego e a economia informal predominam na população urbana e a chance de um Brasil responder e progredir ao ponto de dar certo já era mínima em outras décadas, quiçá agora.
O desânimo em produzir alternativas e fórmulas capazes de soluções aparentes recai na estratégia de desistência, em função do estrangulamento da sociedade perante um governo com os dedos despedaçados.
Após 500 anos, diagnosticado o envelhecimento e o desgaste dessa imensa engrenagem, o País mostra que tem de projetar um caminho e enxergá-lo para possíveis saídas. Os 500 anos dos brasileiros buscam alternativas freneticamente para superar os desequilíbrios que a sociedade apresenta, determinando valores históricos ao nosso Jeca Tatu onde surgem os personagens salvadores da nossa pátria como os padres cantores, líderes religiosos e carismáticos etc.
Falar não resolve mais, nem mesmo o poderoso biotônico líquido que serviu para curar o personagem Jeca Tatu de Lobato que salvou tanta gente na década de 60 e 70 de profunda anemia, possui elementos para amenizar o sofrimento de uma Nação doente.
A maior comemoração é, sem dúvida, a destruição de culturas e o descaso social, como os grandes crimes ambientais, morte dos índios, golpes, falcatruas etc. embutidos na felicidade da globalização e de um mundo-Brasil com projeção internacional pelo controle da inflação. Todos pensando da mesma maneira, dialogando de forma similar, pronunciando as mesmas palavras e assumindo que amanhã teremos o que desejamos.
A língua, ao contrário da moeda-economia ainda é privilégio de brasileiros que comemoram os 500 anos diferentemente. Ainda temos esta propriedade, fruto de uma herança.
Os séculos mostraram um País com cada vez menos autonomia, mas com vontade de retomar um sentimento de conquista, amargurado pelas privatizações de ideais e de sonhos quase perfeitos. O tempo é o maior inimigo, marca a data dos festejos, das comemorações. O banquete de marmitas e marmitex é o que mais teremos na mesa dos 500 anos dos brasileiros. É o show da vida.
A justiça para determinadas classes sociais parece sonho muito distante, mas 500 anos projetando erros graves será que servirão para a tentativa de construir um Jeca Tatu mais saudável ou instituirão a degradação por completo? Agora, se conseguirão uma retomada ao ponto de obter a cura ou amenizar a doença aparentemente crônica do nosso Jeca Tatu, aí já são outros 500.





