ORIENTE MÉDIO - Mundo árabe em ebulição
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sábado, 26 de fevereiro de 2011
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local <br> 
Desde que um jovem comerciante ateou fogo ao próprio corpo em janeiro para protestar contra a polícia que o proibiu de vender frutas e verduras nas ruas de Sidi Bouzid, na Tunísia, o mundo árabe mudou. Milhares de tunisianos foram às ruas e derrubaram o ditador Zine el Abidine Ben Ali, que ficou no poder por 24 anos.
Dias depois, foi a vez do ditador egípcio Hosni Mubarak, que comandou o país por três décadas, renunciar após ser pressionado por manifestações populares. Agora é o povo Líbia que está em guerra contra o ditador Muamar Kadafi, no poder desde 1969.
Andrew Traumann, professor de Relações Internacionais da UniCuritiba e doutorando em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), acredita que a revolta pode se espalhar ainda mais pelo Oriente Médio, mas não deve afetar todos os países. ''Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes são ditatoriais, monarquias absolutas, porém têm também uma característica de dar um certo conforto para seus cidadãos'', analisa. Por isso, aponta, estão menos sujeitos a enfrentar levantes.
Como podemos explicar que ainda hoje existam tantas ditaduras, oficiais ou não?
Isso vem de um longo período. Podemos colocar como marco inicial o período de colonização e descolonização do Oriente Médio. Naquela região, quem dominava até 1918 era o Império Otomano. Após 1918 esse império é dissolvido e duas potências ocidentais, França e Inglaterra, passam a dominar essa região. São criados países como Síria, Líbano, Jordânia, Iraque. Quando é descoberto o petróleo, é interessante para as potências ocidentais, a princípio para França e Grã-Bretanha e depois da Segunda Guerra os Estados Unidos, que esses regimes sejam estáveis para que o preço do petróleo fique estável.
O caso do Egito não é tanto uma questão de petróleo, mas ele foi o primeiro país árabe a fazer as pazes com Israel. É interessante para as potências ocidentais que o Hosni Mubarak lá ficasse para manter a estabilidade das relações com Israel.
Isso explica então por que o Estados Unidos apoiam algumas ditaduras e outras não?
Exatamente. Já houve época que eles apoiavam o Saddam Hussein. Na Guerra Irã-Iraque ele era visto como um líder moderno, laico, que não era um fanático religioso.
Quais circunstâncias proporciaram os levantes em vários países da região?
São vários fatores: a própria situação econômica de cada país, o fato de ser uma região de jovens, as taxas demográficas muito altas. Temos 90% da população abaixo dos 25 anos desempregada. Um ponto que não podemos deixar de notar é a questão da informação. Hoje, com as redes sociais, a internet, as pessoas têm muito mais acesso ao mundo lá fora do que tinham antes. Talvez houvesse uma ignorância de como era a vida em outros países, talvez tivessem uma mentalidade de mais subserviência, talvez achassem que não fosse possível derrubar um ditador como o Mubarak. E de repente, quando os tunisianos conseguiram, foi um estopim para que os egípcios tentassem também.
Por esse panorama, podemos dizer que esse ''vírus'' da revolução deve se espalhar por outros países?
Provavelmente sim, mas não por todos. Estamos tendendo a achar que os países árabes são todos iguais, mas não são. Temos que fazer uma diferença entre algumas das monarquias do Golfo Pérsico e de outros países porque nações como o Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes são ditatoriais, monarquias absolutas. Porém também têm uma característica de dar um certo conforto para seus cidadãos. Lá não se paga impostos ou estes são mínimos, há um razoável nível de vida, não há miséria como em outros países. No caso da Arábia Saudita, há a legitimidade religiosa, porque lá estão as cidades Meca e Medina, que são sagradas para os muçulmanos. Acho que esses países estão a salvo, porque dão um certo conforto para seus cidadãos. Egito, Líbia, Tunísia, são países onde não há isso, porque são pobres em petróleo ou quando há petróleo ele não é usado para o desenvolvimento social do país.
Então existem países onde o povo tem que escolher entre uma ditadura boa e uma democracia ruim?
Com certeza. No Catar existe a rede de TV Al Jazeera, há uma relativa liberdade de expressão, a Copa do Mundo vai ser lá em 2022. Dubai se tornou um destino turístico para muita gente. Há uma tentativa de tornar esses países mais abertos, até certo ponto. É diferente de outros países, como a Líbia, onde há uma ditadura militar, a repressão é muito maior. Para os Estados Unidos também existem ditaduras boas, que atendem a seus interesses. E temos que ver qual vai ser a posição dos Estados Unidos. No caso da Arábia Saudita, não tenho a menor dúvida de que os EUA não vão deixar que nada aconteça.
O senhor acredita que os países que estão saindo desses regimes agora tenham estrutura política para fazer a transição para a democracia ou correm o risco de cair em outra ditadura militar ou religiosa?
Correm o risco. Eles não têm tradição em democracia, sequer têm uma cultura democrática ou uma estrutura para isso. O Egito é um país que vive sob ditadura desde sempre. A junta militar que assumiu no lugar do Mubarak simplesmente pode não querer fazer essa transição.


