Orientação profissional
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de outubro de 1997
Selena Garcia Greca 
A preocupação de pais e estudantes em torno da preparação para o concurso vestibular, grande momento da vida dos adolescentes, parece se limitar à escolha à escolha do cursinho, à escolha da universidade e até à escolha do apartamento em que o estudante vai ficar enquanto cursa o preparatório. No entanto, a decisão sobre qual o curso universitário a seguir tem sido menosprezada. Em pesquisa que realizei junto a 600 estudantes que pleiteavam vagas na Universidade Federal do Paraná, concluí que 87% deles sequer tinha resolvido sobre a futura profissão a apenas três semanas das inscrições para o vestibular. Números do Ministério da Educação, que apontam uma média de 40% de evasão nas universidades brasileiras, reforçam a tese de que este comportamento, muito comum, não é suficiente para resolver a vida profissional de ninguém. Está faltando maturidade aos estudantes para fazer uma escolha segura.
Já é tempo de adotar a orientação vocacional e profissional como disciplina escolar, que seria ministrada desde o pré-primário. A orientação vocacional precisa ser encarada como uma Educação de Projetos, que permita ao jovens o auto-conhecimento e a elaboração de um projeto pessoal de existência para que exprimam as suas necessidades, aptidões, interesses e valores individuais. Não deve, portanto, resumir-se à mera aplicação de instrumentos de avaliação de características individuais, ou à simples transmissão de informações sobre cursos e profissões. É ilusório pensar que se pode fazer uma Educação de Projetos em quatro ou cinco horas de intervenção antes do momento da escolha profissional. Este é um processo longo, que necessita estar articulado com a realidade familiar e produtiva, com a comunidade e os meios de informação, que também concorrem para a definição de projetos vocacionais. Isto implica, necessariamente, em um tempo adequado e uma ação sistemática continuada.
Considerando-se a importância da formação da identidade na construção de um projeto de vida, conclui-se que a orientação vocacional e profissional deve ser intrínseca ao processo educativo desde muito cedo, como uma dimensão do desenvolvimento humano. É um processo contínuo onde a criança deve ser o agente ativo adquirindo capacidade de relacionar-se, de sair de si, de projetar-se e transcender a si mesma.
Entretanto, mesmo que as bases da identidade tenham se firmado na socialização primária, isto não significa que elas não possam modificar na adolescência, quando se costuma escolher a profissão. Neste momento, a orientação profissional pode permitir a quebra de uma identidade pressuposta, já que a identidade se processa continuamente.
Embora seja difícil, na prática, os pais precisam abdicar dos planos traçados por eles para seus filhos para não interferir negativamente neste momento crucial de decisão. Em contrapartida, os filhos devem deixar de lado o sentimento advindo do ideal profissional dos pais. O ingresso na adolescência coincide com esta fase decisiva, quando o indivíduo passa por turbulências psicológicas e físicas, expectativas e insatisfações, além da pressão familiar quanto às suas obrigações. A participação dos pais no processo da escolha de seus filhos deve servir para ajudá-los a emergir para o fortalecimento de uma atitude ativa de descoberta de si próprio e para uma tomada de consciência crítica em relação ao espaço de liberdade de escolha.
Globalização e tecnologia são apenas dois bons motivos para esquecer alguns preceitos da tradição familiar e os velhos moldes dos testes vocacionais de última hora. O Fórum Econômico de Davos, na Suiça, no ano passado, mostrou que existem 800 milhões de pessoas desempregradas no mundo, equivalente a 13 vezes a população economicamente ativa do Brasil (que é de 60 milhões). No evento ficou evidente que o futuro está sendo previsto com incertezas em relação ao mundo do trabalho. Há os que defendem que atribuir o desemprego aos avanços tecnológicos é uma visão mítica, confortável e fatalista. E há os que aceitam o desemprego tecnológico como uma consequência inevitável. Diante desse quadro de mudanças na economia mundial, nunca será demais o auto-conhecimento e a informação sobre as profissões que a orientação profissional e vocacional proporciona.


