Escolher o curso universitário é uma decisão difícil para os jovens diante do diversificado leque de opções existentes. Saber qual carreira se pretende seguir exige clareza para enxergar as possibilidades de atuação profissional e o panorama do mercado de trabalho. Muitos buscam esclarecer dúvidas com a ajuda da escola, mas encontram respostas genéricas ou muito pontuais.
Um trabalho de orientação profissional, desenvolvido continuamente no ambiente escolar, incorporado ao projeto pedagógico da educação infantil ao ensino médio. Este é o caminho apontado pela psicóloga Conceição Uvaldo, presidente da Associação Brasileira de Orientação Profissional (Abop), para preparar melhor o jovem e dar subsídios para que saiba fazer a escolha mais adequada.
Em entrevista à FOLHA, Conceição Uvaldo fala sobre a melhor maneira de incorporar a orientação profissional nas escolas. ''Existem alguns modelos já amplamente estudados e consolidados em outros países, mas mesmo estes estão sendo revistos a partir da nova organização do trabalho. Acho que o primeiro passo é trazer orientadores, professores e diretores para discutir, pensar junto com os orientadores profissionais para podermos desenvolver modelos de fato passíveis de serem implementados em nossas escolas'', aponta.
Qual é a idade ideal para se iniciar a orientação vocacional?
É preciso fazer uma distinção importante: o que é uma preparação para o trabalho e escolha profissional e uma orientação profissional propriamente dita. Por preparação, refiro-me a um espaço contínuo para pesquisa e conhecimento sobre o mundo do trabalho e também de autoexploração, autoconhecimento. Este processo contínuo pode ocorrer em casa, mas o melhor lugar é a escola.
Com isso, quero dizer que a questão do trabalho, da escolha profissional e do conhecimento sobre as carreiras deve fazer parte do projeto pedagógico da escola e fazer parte das atividades e reflexões dos alunos desde a pré-escola, respeitando-se, é lógico, a compreensão e o desenvolvimento do aluno. Assim, na pré-escola, por que não convidar os pais a apresentarem seus ofícios para a classe do filho de forma que entendam o que ele faz? Por que não incentivar o professor do ensino fundamental a fazer uma brincadeira com seus alunos e preparar no pátio da escola um ''sítio arqueológico'', fazendo com que os alunos recolham pedaços de pratos e outros objetos e a partir disso explicar como é o trabalho do historiador, arqueólogo e como se constrói o conhecimento histórico?
Isso deve ocorrer até chegar ao ensino médio, quando a questão da escolha e da informação faz parte do cotidiano. Possivelmente, os alunos chegarão ao final do ensino médio mais preparados para fazer escolhas. Logicamente nem todos estarão definidos e os que necessitarem poderão fazer parte de um trabalho mais pontual, individualmente ou em grupo, para poder perceber onde estão suas dificuldades e dúvidas. Não há uma idade adequada para fazer uma orientação e sim trabalhos diferentes para cada faixa etária.
A opção por áreas de conhecimento deveria ocorrer mais cedo, como em outros países?
O que acontece, em geral, é que os conhecimentos adquiridos na escola não se relacionam entre si, assim é comum não haver projetos conjuntos entre professores de disciplinas distintas, o que faria com que o conhecimento fosse melhor integrado e compreendido. Uma forma interessante de se trabalhar é a estratégia dos temas transversais, um tema tratado por todas as disciplinas, o que dá mais a ideia da complexidade do conhecimento. Um dos temas sugeridos na própria Lei de Diretrizes e Base (LDB) é trabalho, mas podem ser outros. O aluno vai fazendo relações, vai percebendo que ângulo da compreensão daquele tema lhe é mais interessante. A divisão de áreas pode não ser a melhor forma de se aprender a aprender.
Qual é a contribuição dos pais e professores nesse processo?
Vale a pena frisar a importância do professor no processo de escolha de seus alunos, o que em geral passa despercebido por eles, talvez pela desvalorização desta carreira em nossa sociedade. Contudo, o professor não apenas ensina novos conhecimentos, mas também estimula os questionamentos, interesses, serve de modelo. Em um trabalho de orientação profissional nos moldes de ''educação para a carreira'' (esse é o nome dado a este tipo de modalidade de orientação Profissional), eles (professores) são peças fundamentais. Cabe ao orientador planejar o processo de orientação profissional com os professores e auxiliá-los na implantação. A orientação não ocorre apenas nas feiras de profissões ou nos grupos, ela está presente na sala de aula.
Já os pais precisam participar do processo, pesquisando, explorando junto. É importante estimular o filho a buscar informações, pensar, ''brincar com ideias''. Não há nenhum problema no filho dizer hoje que quer fazer engenharia e amanhã afirmar com toda a certeza que jornalismo é o caminho.
Os jovens estão preparados para escolher a profissão aos 17 anos?
Esta é uma questão difícil porque depende de uma série de fatores, como experiências, maturidade, entre outros. O que é importante perceber é que ao contrário do que ocorria nos anos 1970 e 1980, o que o jovem tem que escolher agora é um curso e não uma profissão, porque o mundo do trabalho é muito mais complexo e implica em várias mudanças de atividade ou mesmo de carreira. Assim, o que se espera de um jovem de 17 anos é que escolha um curso pelo qual ele se interesse, tenha afinidade e que vislumbre poder atuar em algo relacionado ao que deverá estudar. Uma boa formação é fundamental para poder se adaptar às necessidades e mudanças no mercado de trabalho.
A escola pública não dá conta nem de melhorar a qualidade de ensino. Como vai promover a orientação vocacional?
A questão da escola no Brasil, não apenas a pública, precisa ser atacada de forma mais eficiente por meio não apenas de verbas, mas principalmente pelo desenvolvimento de políticas públicas eficientes. No caso da orientação profissional, a necessidade de políticas públicas é clara. Quando falamos de políticas públicas, pensamos em introduzir e preparar profissionais para a sua efetivação.
Como preparar os professores para orientarem bem os alunos nessa escolha?
Para prepará-los é necessário o desenvolvimento de um projeto na escola. Um projeto em consonância com os objetivos e e com o projeto pedagógico da escola. Ou seja, algo amarrado com o dia a dia da escola, com o processo de ensino-aprendizado. Portanto, mais do que nunca é preciso estudar, pesquisar modelos e teorias de orientação profissional. Talvez, no futuro teremos, a exemplo de vários países, um orientador profissional em cada escola, responsável por desenvolver o projeto, implementá-lo, treinar as pessoas e reformulá-lo. Falamos então de um orientador profissional que faz parte do corpo de orientadores da escola, assim como o pedagógico e educacional.
Por que tantos erram na escolha da profissão e qual o prejuízo disso para o aluno e para o País?
As pesquisas mostram que a desistência está ligada essencialmente à falta de reflexão e de pesquisa anterior. Ou seja, erram mais aqueles que não ficam em dúvida ou entregam a escolha nas mãos de outras pessoas. É difícil se falar de prejuízos pessoais porque para alguns pode ser uma oportunidade de amadurecimento e possibilita uma melhor escolha, além de novos conhecimentos que podem ser adquiridos. Mas, em geral, a sensação de fracasso, de perda de tempo, é muito ruim e pode trazer consequências para a autoimagem. Em se tratando de um aluno de faculdade pública ou de um aluno beneficiado por um dos programas de auxílio do governo, de fato existe uma perda considerável.
A senhora afirma que muitos fazem escolhas erradas porque a escola está distante da realidade do mercado de trabalho. Como resolver isso?
Só é possível resolver esta questão quando a escola passar a entender como uma de suas missões preparar o jovem para o mundo profissional e facilitar as pontes, a aproximação dos alunos das questões sobre o trabalho e o mercado que fazem parte do nosso dia a dia.

mockup