A Bandeira Nacional tremula vigorosa num lugar de destaque na cabana armada num terreno às margens da Via Expressa (Avenida 10 de Dezembro), na zona norte de Londrina, onde a reportagem da Folha encontrou uma família brasileira. Muitos poderão (e irão) achar que a história dessa família é fantasiosa, fruto da imaginação fértil de quem já passou por muitas desventuras na vida. Mas parodiando a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante um encontro sobre doenças mentais realizado esta semana, em Brasília, ''todos temos um pouco de louco dentro de nós''.
Na pequena cabana, vive a família de Orias Sant'Ana, 38 anos. Brasileiro descendente da mistura de sangue espanhol com índio, Orias diz que encontrou o símbolo maior de nossa ''ordem e progresso'' rasgado e abandonado. Ele costurou a bandeira e a hasteou no terreno onde vive. ''Sou brasileiro, patriota, luto (pela vida) com força de Titã e passos de gigante'', justifica.
Feliz por estar vivendo novamente com a mulher, Márcia Pereira Santos Sant'Ana, 28 anos, e com a filha Querem, de um ano e quatro meses, Orias conta que a história de lutas e bravura da família começou com os avós, ainda na primeira metade do Século XX.
Um avô, segundo ele, foi decisivo durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Morando na margem paranaense do Rio Paranapanema, o avô ajudou na implosão de uma ponte que tinha o objetivo de impedir que as tropas paulistas cruzassem para o Paraná. Por outro lado, a avó índia possuía uma canoa com a qual ajudava os desertores paulistas a cruzarem o rio e escaparem da morte. ''No meio do Paranapanema, eles amarravam a farda no fuzil e jogavam a arma no rio'', detalha.
O pai, que viveu por muito tempo em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), também foi um bravo. Era policial e costumava caçar onças pelas matas do norte paranaense. Numa das caçadas, um dos companheiros de caçada foi baleado por engano durante a noite. ''Meu pai colocou ele nos ombros e andou por 30 quilômetros até chegar na cidade. Um outro policial achou que era ele quem tinha atirado no amigo e meu pai decidiu entregar sua arma e desistir da profissão.''
Orias acabou herdando a coragem de seus antepassados. Nascido em Londrina, ele morou por muito tempo em São Paulo, onde fez o curso de detetive particular. De volta ao Paraná, ele conheceu seu grande amor, Márcia. Em setembro de 1999 o rapaz estava de casamento marcado a jovem estava grávida da primeira filha do casal mas a família da noiva, no entanto, não aprovava a união. ''A mãe e os irmãos dela fizeram um conluio e me espancaram'', lembra.
Depois disso, resolveu voltar para São Paulo visitar uma avó que estava doente. Acabou se fixando por lá, onde trabalhava como chefe de segurança e também criou uma rádio comunitária numa comunidade carente.
No final do ano de 2000, resolveu voltar para visitar familiares em Londrina e reencontrou Márcia e a filha, já com quase dois anos. ''Na passagem do dia 31 para o dia primeiro, minha mulher foi espancada pela mãe e pelos irmãos e eles acabaram tomando nossa primeira filha'', conta. ''Nossa filha foi sequestrada. Desde aquele dia, não mais vimos ela de novo'', denuncia. A família de Márcia queria que ela cobrasse pensão de Orias.
Desde então, o casal passou a viver juntos num barraco no mesmo terreno onde acabaram construindo a tenda onde moram atualmente. O terreno, segundo Orias, foi doado por um amigo. Ele tem até uma ''procuração de doação'' assinada pelo suposto dono do terreno. ''Recebi como honorário por um serviço de detetive que realizei para ele'', assegura. Por causa da profissão, ele diz que arrumou muitas inimizades e acabou perdendo quatro casas. Mesmo assim, não guarda mágoas e continua gostando de viver. ''Trabalho para ver a justiça ser feita e não me deixo levar por vantagem nenhuma.''
Sobre sua moradia atual, ele não tem grandes reclamações. Mesmo passando dificuldades com o frio, a chuva e a falta de água, a família não pretende se mudar. Orias apenas quer viver em paz com a mulher e criar a filha pequena. Suas ''poucas'' necessidades são uma bomba d'água para instalar num poço que existe no terreno e um poste de iluminação, ''porque a noite fica um pouco escuro''.

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