Orçamento e realismo fantástico - Luiz Geraldo Mazza
Orçamento e realismo fantástico
Esperava-se com a moeda estável uma ampla desmistificação dos orçamentos públicos nutridos pela inflação e a correção monetária. O Paraná, antes do Plano Real, detinha um modelo de gestão financeira que permitia a sobra de apreciável taxa de investimento, já que as despesas de custeio não atingiam 50% dos gastos.
Com o advento da moeda estável, faltou aos governantes paranaenses um mínimo de visão estratégica e senso de antecipação. O resultado está aí: o governo mal consegue pagar seus funcionários e até imaginou um modelo previdenciário para alinhar o Estado às exigências da Lei Camata. Só que as liminares contra o sistema estão prevalecendo, e agora com o respaldo de um despacho do presidente do STF por sua manutenção no pleito do Sindicato dos Fiscais do Paraná, o que pode acenar para um desastre quando o mérito for examinado no Tribunal de Justiça, no seu Órgão Especial.
Pois ontem, no Chapéu Pensador, que mais parece um gabinete de Macondo, houve o exame do orçamento para 2000, já devidamente expungido das gorduras do verificado na Lei de Meios deste ano, e ainda o Plurianual. Diante das condições que o Paraná atravessa, calcular, por exemplo, o que se poderá ganhar com a fantasia da privatizações, é obra de puro esoterismo e exercício claro de realismo fantástico à Cortázar, Gabriel Garcia Marques, Icasa, Llosa.
BIZARRICE
Essa história em torno da origem da informação sobre os dólares de dona Maristela, mulher do senador Requião, lembra a situação do cara cínico que solta gases no interior de um elevador e olha para os circundantes com um ar severo de condenação
AXIOMA Não posso imaginar o livreiro Aristides Vinholes, o capitão Agliberto Azevedo e dona Mimi Batista, dirigentes falecidos do Partidão, aceitando o novo perfil da agremiação, especialmente com a candidatura do Gláucio Geara a prefeito e a adesão plena da elite da terra, inebriada com o charme do Ciro Gomes: dá para imaginar a execução da Internacional no Clube Curitibano.
GLOSA Como é que fica o triunfalismo de Curitiba com a pesquisa acadêmica que mostra que 15,7% da população vive no cinturão da pobreza? Agora só falta o repique oficial de que 84,3% estão longe da pobreza. Aliás, madame Sansone, quando primeira dama municipal, argumentava que ela e Rafael conheciam os 60 mendigos da Capital, seus respectivos RGs, CPFs e número do supercheque.
EPIGRAMA Falta de absoluto prestígio político do Paraná o fato de empresa mineira ter ganho licitação, com preço mais alto, para o asfalto da Ribeira. Essa frouxidão de nossa terra é sistêmica. Fez bem o senador Alvaro Dias ao denunciar nacionalmente o absurdo num ministério controlado por mineiro. Façamos trocadilho: nem sempre uma licitação é uma ação lícita.
FÁBULA Um empresário da terra teria vivido um drama agudo num laboratório de análises clínicas, dos mais conceituados, por aparecer num exame com HIV positivo quando se constatou, mais tarde, em São Paulo, tratar-se apenas de hepatite. Furioso, pela angústia que padeceu, está processando o laboratório, como se lá trabalhasse o Frankestein.
SPRAY Ontem o governador descobriu a pólvora: o problema número 1 do seu governo, tirando o financeiro (este não tem solução mesmo, afora a alquimia manjada das antecipações de receita), é o da segurança. - No Chapéu Pensador, para alguns o gabinete do doutor Calegari, na hora em que se discutia o orçamento pintou o tema. - No mesmo dia, policiais civis e militares, como integrantes da Loucademia, voltavam às turras, um dia depois de um pastelão em que policiais militares mataram colega que estava descaracterizado como integrante da P-2. - Diante de situações absurdas como essas, e frequentes, o caso não é mais de soco na mesa, mas de substituição de toda a hierarquia, sem hesitação. - Ensina a teologia que a tolerância se ajusta ao erro relativo e nunca ao absoluto. Mas com a energia e a determinação, que caracterizam o governo, já dá para apostar que nada vai acontecer, a não ser que sequestrem uma autoridade e conforme quem for, vai ter gente pagando para que o refém não seja devolvido. - Antes, quem mandava na Polícia era o Aníbal Khury. Com sua morte, esperava-se que o cenário mudasse e tudo está aí como dantes no reino de Abrantes. - Entre os causos que se ouve hoje com bastante frequência nos Campos Gerais, área da Serra de São Luis do Purunã, um deles surpreende: a história de um caçador que foi contratado por produtores da região para pôr fim à mortandade de rezes e que teria faturado nada menos de nove pumas. Há quem diga que o cara foi preso e solto, mas isso já parece folclore, tamanho o inusitado, o que ficaria bem lá no Acre. - Máxima a expectativa em torno do julgamento, nesta sexta-feira, das liminares concedidas contra as taxas da Paranaprevidência pelo Órgão Especial do TJ, ainda mais depois que o presidente do STF rejeitou recurso contra a liminar em favor do Sindicato dos Fiscais.
FOLCLORE Mancadas radiofônicas são sempre um sucesso, mas a relatada num programa nacional da CBN é demais: o repórter anuncia que está caindo granito na região, e aí o âncora o aconselha a se mandar, caso comece a chover mármore. E tem a outra do locutor da noite que está se despedindo e ao não perceber o microfone aberto, tascou: E agora, mulheres ávidas de amor, me esperem que eu não falho. Sua bronca maior foi com a própria esposa.
CROMO Acabara de ser assaltado e ficou ainda mais apreensivo quando pensou em ir à Polícia.
AFORÍSTICO Os dólares da mulher do senador e os bingos do Rafael Greca mostram que o Paraná, quando aparece no noticiário nacional, é sempre assim. O único que se revelou artista em explorar o fato negativo, a desgraça, foi Ney Braga com os incêndios florestais de 1963.





