Oração pela pátria
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quarta-feira, 06 de setembro de 2017
Gaudêncio Torquato 
Pai nosso que estás no Céu, santificado seja o vosso nome!
Pedimos suas bênçãos, Senhor, na semana em que nosso país comemora o Dia da Pátria, abrigando uma população de 207,6 milhões de habitantes e vivendo um dos momentos de maior aflição de sua trajetória política. Eis a nossa prece.
É bem verdade, Senhor, que habitamos um território belo e imenso, com a maior reserva de água doce do mundo, 12% da quantidade existente nos 193 países do nosso planeta, e com biomas terrestres Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Caatinga e Campos do Sul abrigando 20% das espécies do planeta. Em nosso exuberante torrão, até desastres naturais há, sem, porém, o poder destruidor de tufões, terremotos e furacões.
Pero Vaz de Caminha certamente tinha razão, Senhor, na carta escrita ao rei Dom Manuel em 1º de maio de 1500, ao descrever que a terra descoberta pelo comandante português Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril, "em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem".
Agradecemos, Senhor, pela extrema generosidade com que nos agraciou, dando-nos terra tão rica, assentada em um "processo de equilíbrio de antagonismos", como ensina o mestre Gilberto Freyre: as culturas europeia, indígena, africana; o católico e o herege; o jesuíta e o fazendeiro; o bandeirante e o senhor de engenho; a paulista e o emboaba; o pernambucano e o mascate; o bacharel e o analfabeto; o senhor e o escravo".
Tal convivência antagônica formou um povo cordial, alegre, trabalhador, hospitaleiro, mesmo que também carregue traços negativos, como bem ilustra Afonso Celso em seu clássico Por que me Ufano do meu País": falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouco diligente". Seria esse o outro lado da profecia de Vaz de Caminha, quando garantiu que, na nova terra, "em se plantando tudo dá?"
Venha a nós o vosso Reino!
E que venha logo, Senhor. Antes que a matança nas ruas alcance níveis incontroláveis. A violência urbana assola bairros, ruas, vielas das grandes e médias cidades.
O apartheid social se alarga na onda de um discurso propagandeado por um partido político.
Não somos uma sociedade igualitária, Senhor. Há enorme distância entre pobres e ricos, privilegiados e oprimidos, donde se pode até a compreender o escopo de instituições que desfraldam as bandeiras da igualdade, da fraternidade e da justiça para todos. Só não é possível defender o ideário dos direitos humanos usando as armas da intolerância.
Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.
Que a vossa vontade, Senhor, chegue até nós. Rogamos que a paz do céu baixe sobre nosso território, elevando os menos favorecidos a degraus superiores.
Nossos pobres, Senhor, chegam a 30 milhões de pessoas. E mais de 10 milhões de brasileiros vivem em condições de extrema miséria.
O pão nosso de cada dia nos daí hoje. Farto para uns e migalhas para outros.
Rogamos, Senhor, que injete na consciência dos nossos homens públicos o dever sagrado de cumprir a missão de não trair o compromisso com aqueles que os conduziram às suas funções.
Perdoai as nossas ofensas. Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
Pedimos perdão, Senhor, para os pecadilhos do cotidiano, as ofensas comuns que se revelam em deselegância, gestos mal educados, mentirinhas e falsas versões. Não podemos pedir perdão, Senhor, para atos que signifiquem assalto à coisa pública, praga que se expande sob a maquinação da burocracia estatal, de políticos e círculos de negócios.
E não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal.
Nessa Semana da Pátria, suplicamos por ajuda, Senhor, para construir a Terra dos nossos sonhos, onde gerações viverão em convivência harmoniosa. Dai-nos força, Senhor, para nos livrar dos males que afligem nossa bela, porém sofrida, Nação.
Ajudai-nos, Senhor, a subir ao altar do Bem.
Amém!
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação em São Paulo


