Optar no segundo turno de 2000
As eleições realizadas anteontem revelaram o início de um novo ciclo na política paranaense. A política paranaense tem apresentado limites temporais de mais de dez anos na configuração de novas tendências e padrões político-partidários. Nas eleições para a Prefeitura de Curitiba em 1954 e na de governador do Paraná em 1960 surgiu a figura de Ney Braga. O MDB começou a sua arrancada nas eleições de 1974 e consolidou-se na inflexão das eleições de 1982. O grupo de Jaime Lerner forma a sua nova base democrática (não a gestão indireta e biônica de 1971 e 1979 na Prefeitura de Curitiba) desde as eleições municipais de 1988 e nas estaduais de 1994.
O Partido dos Trabalhadores, no seu aprendizado democrático, discursivo e administrativo marcou as eleições de 2000 enquanto novidade das urnas. Se as oposições ao governo estadual já tinham conseguido vitórias nos centros sub-regionais de Foz do Iguaçu, Cascavel, Guarapuava e em Ponta Grossa já no primeiro turno, o segundo turno mostrou a fácil vitória do PT em Maringá e em Londrina e a difícil vitória do prefeito Cassio Taniguchi em Curitiba com um resultado inédito do PT na capital paranaense.
A análise política revela que o PT começou o segundo turno curitibano com o mesmo discurso moderado que o tinha conduzido a cerca de 35% dos votos considerados no primeiro turno. O efeito hipódromo (pelo qual muitos eleitores tendem a votar no candidato com mais expectativa de vitória) inflacionou as primeiras pesquisas eleitorais do segundo turno que indicavam grande favoritismo inicial para o PT.
A situação soube trabalhar os seus trunfos como o partido que teve maior volume de campanha, melhor forma e apresentação na propaganda na mídia em função do abundante dinheiro do PFL, mas também teve o benefício da estrutura do grupo no poder que controla o aparelho de Estado paranaense e curitibano.
O PFL partiu para a crítica e ganhou vantagens sobre um PT que não respondeu e criticou suficientemente o adversário durante boa parte do segundo turno e agora sem os outros oposicionistas que tinham batido pesadamente no PFL durante o primeiro turno. Quando o discurso do PT mudou e a sua atitude para a crítica e para a ofensiva despertou nos últimos momentos da campanha, o PFL parou de crescer e o PT sustou a sua tendência de queda marcada desde o início do segundo turno, mas aí não havia mais tempo para alterar a situação com o resultado final de 26.541 votos e de apenas 3% de vantagem para Cassio.
O poderoso grupo que controla a Prefeitura em Curitiba (como eles mesmos gostam de se auto-identificar, uma vez que a filiação partidária é secundária para eles) representou a única vitória nacional do PFL nas capitais. Esse é um dos mais estruturados grupos de poder municipal no Brasil com um notável discurso e prática técnica na gestão do planejamento urbano que agora sabe que terá de ampliar a sua base de orientação na esfera social se desejar sobreviver.
O senador Roberto Requião e o senador Alvaro Dias perderam a condição de estrelas da oposição paranaense para a estrela coletiva do PT e correm o risco de terem de debelar motins nas suas bases partidárias dado o papel apagado do PMDB e do PSDB no segundo turno (nenhum vereador do PSDB apoiou efetivamente Vanhoni e o partido dos contrários ao domínio dos irmãos Requião, os que preferiam a candidatura de Gustavo Fruet, mostra abertamente o seu desconforto em Curitiba).
O PT curitibano, na sua derrota poderá ter elementos para construir uma estrutura municipal mais orgânica e forte para 2002 e 2004. Muitas experiências negativas do PT nas prefeituras de Fortaleza, de Campinas, em São Paulo com Erundina, no Espírito Santo com Buaiz no governo e na própria Londrina de Cheida, foram momentos ruins para o partido devido ao susto de vitórias precoces e precipitadas.
O revés em Curitiba pode ajudar mais o projeto de transformação do PT curitibano e paranaense a longo prazo do que uma vitória imatura no susto. O projeto do PT implica na construção de uma ampla hegemonia. Agora existe um verdadeiro PT paranaense. Nedson e José Cláudio levantaram o Norte em boa parte devido ao fracasso completo das atuais prefeituras imersas em denúncias de corrupção.
O PT em Curitiba, que viu o terrorismo discursivo e prático que o esperava por parte de grupos da classe dominante curitibana, terá tempo para crescer, amadurecer, formar quadros e acumular experiências que provem que o PT é um partido democrático, eficiente, transformador e apto para oferecer ao Paraná mais um ciclo na nossa história política. E será um belo ciclo de verdadeira cidadania e de transparência como o Paraná tanto necessita. O Paraná caminha para a frente e vários passos foram dados na primavera de 2000.
- RICARDO COSTA DE OLIVEIRA é sociólogo e professor universitário em Curitiba





