Quando os militares assumiram o poder em 1964, as esquerdas desunidas, românticas e autoconfiantes, se pulverizaram. A greve geral convocada pela CGC para o dia 30 de março fracassara, os estudantes estavam atônitos e, no Rio de Janeiro, ouviram-se com curiosidade, pelo rádio, os apelos desesperados do ministro da Justiça, Abelardo Jurema.
Passados vinte anos e chegando ao fim o mandato do general João Baptista de Oliveira Figueiredo, a impressão que se tinha era a de que o presidente aguardava com impaciência a libertação do peso excessivo de um cargo para o qual não fora talhado. Na verdade, avolumaram-se sobre ele, na esteira da abertura do qual fora fiador, insatisfações e críticas que eram canalizadas, sobretudo, através de grupos de pressão como a OAB, a ABI, a CNBB. Ao mesmo tempo, em decorrência da crise econômica, cresciam o movimento operário e outras organizações de massa, como as comunidades eclesiais de base (CEBs), cujas lideranças encontravam a facilidade de mobilização nas dificuldades pelas quais passava a população. Quanto à imprensa liberada da censura, denunciava abusos, apontava escândalos, defendia causas, o que acentuava a insatisfação da sociedade e contribuía para desgastar ainda mais a imagem do governo.
Foi aquele um dos tempos mais propícios às oposições, quando o PMDB, conseguindo capitalizar queixas e lamentações, deixou longe o MDB do ‘‘sim senhor’’ e elegeu o cordial, ameno e conciliador Tancredo Neves. Foi uma época em que entusiasmados antimilitaristas condenaram livremente o cerceamento das liberdades, as injustiças sociais, a concentração de renda, a fome, a miséria, o arbítrio. E os que assim fizeram se proclamaram oposições de esquerda, porque ser de esquerda naquele momento era ser contra o governo militar.
A oposição foi ao paraíso, isso é, ao poder. Não com Tancredo Neves, que morreu tragicamente sem assumir a presidência, mas com seu vice José Sarney. Ao término daquele mandato, o saldo porém não era nada positivo. Sarney decretara três planos econômicos, que não deram certo, mudara quarenta e seis vezes seu ministério - teve sessenta e cinco ministros em vinte e oito vagas -, trocara inutilmente quatro ministros da Fazenda e quatro presidentes do Banco Central, e deixava a economia do país arruinada com a inflação de 2.750% ao ano, depois de tê-la recebido com índices de 225% anuais. Nos últimos dias do governo Sarney, a inflação chegou a 80% ao mês, demonstração inequívoca da situação de desorganização a que o país chegara.
Após José Sarney veio o governo de Fernando Collor de Mello, o jovem ‘‘Indiana Jones’’ do qual muito se esperava, e que prometeu derrubar a inflação com um só tiro. Collor acabou sendo derrotado da presidência numa versão moderna de Caim e Abel, coadjuvada pelas oposições. E ser da oposição naquela conjuntura, e ser de esquerda era ser contra Collor.
Apeado Collor de Mello, ascendeu à presidência seu vice, Itamar Franco. Parecia que uma maldição ligada a vices tinha sido lançada sobre a Pátria. Afinal, nunca havíamos sido castigados desta forma tão seguidamente, e a queixa era geral. Queixavam-se as oposições, desenvolvendo sua costumeira arte política de criticar para poder também chegar lá. Queixava-se o povo, que com ou sem razão vive em perpétuo queixume. Queixava-se a imprensa, exercendo o quarto poder de forma implacável.
Mas em meio a azares e maldições, pode surgir algo positivo. E veio o Plano Real por onde Fernando Henrique Cardoso, ex-ministro da Fazenda de Itamar, navegou e aportou são e salvo na presidência da República. Então, aconteceu o que todo o país almejava: a inflação foi debelada e o país pôde se preparar agora para as reformas necessárias. Ao conseguir manter a economia estável, o presidente consumou uma revolução muito maior e mais profunda do que aquela revolução equivocada com a qual sonhou na sua juventude, quando também era da oposição e de esquerda.
O êxito do governo de Fernando Henrique Cardoso tem sido tão notável, que apesar dos julgamentos políticos se processarem em terrenos movediços, pode-se dizer que neste momento os índices de aprovação à política do presidente são bastante altos, com tendência a continuarem assim.
Mas as oposições continuam a se queixar. As críticas incidem sobre um vago neoliberalismo que ninguém sabe bem o que é, mas que se supõe seja algo maléfico. De todo modo, ser de esquerda agora é ser contra Fernando Henrique e contra o neoliberalismo.
Mas se tal postura pode parecer a alguns políticos uma boa bandeira para chegar ao poder, não vai funcionar. Isso porque, uma coisa é processo que está dando certo na realidade. Outra é ideologia ultrapassada, que culminou em descalabro onde foi posta em prática. Desse modo, ser hoje oposição em termos de capitalismo versus socialismo, é algo complicado. E para se livrar da nostalgia dos tempos em que ser oposição era para valer, só tem um jeito: ser de esquerda na teoria, e de direita na prática. Esse é o único jeito de continuar se ‘‘opondo’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.

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