Não há como negar: o oposicionismo avançou alguns corpos no País. O recado das urnas parece claro: prefeitos aprovados na primeira administração merecem um voto de confiança; políticos envolvidos em escândalos e casos de corrupção merecem um grande castigo; perfis novos, assépticos, identificados com mudança, são a bola da vez, devendo ter um espaço na galeria da nova safra de políticos.
Os prefeitos de algumas capitais foram reeleitos não por que receberam o apoio de governadores ou chefes políticos e sim porque foram aprovados, como Ângela Amin, em Florianópolis, Cícero Lucena, em João Pessoa, Vilma Faria, em Natal, André Puccinelli, em Campo Grande, e Maurício Soares (São Bernardo), Tortorello (São Caetano) e Celso Daniel (Santo André), no ABC paulista. Marta Suplicy, em São Paulo, teve expressiva votação em função de sua identidade e não por causa do PT. O voto em Inácio Arruda, em Fortaleza, foi para seu conceito pessoal e não para o PC do B.
A campanha privilegiou perfis e não partidos, apesar das vitórias cantadas pelas três principais siglas: o PSDB, que obteve o maior número de votos, o PMDB, que fez o maior número de prefeitos e obteve o segundo lugar na contagem de votos e o PFL, que ganhou a terceira colocação, vangloriando-se do fato de ter entrado forte nos grandes centros urbanos. Os três grandes partidos ficaram dentro do mesmo índice de 15% dos votos, com pequenas diferenças numéricas. Mas foi o PT o partido que mais cresceu nas capitais e nas principais cidades do País, chegando, por isso mesmo, no ranking dos grandes.
Que leitura pode se extrair dos resultados? Primeiro, o recado implícito na votação obtida pelos candidados do PT, surpreendente em alguns casos, como em Goiânia e em Recife, que indica uma sinalização no sentido da mudança. O eleitorado começa a expressar certo cansaço com os velhos perfis, mesmo que alguns deles possam até ser considerados valorosos, competentes e experientes.
Com essa indicação, o PT se insere fortemente no páreo presidencial de 2002, até porque o partido passa a imagem de que já não é o bicho-papão, capaz de virar bruscamente a mesa. O PT se abriu, já admite parcerias, quer governar com frentes partidárias, rompe a redoma histórica e a aura de entidade obreira do ABC paulista. Essa imagem light, amena, é a extensão da cara elitista e perfumada de Marta Suplicy, do tom mais amigável do ex-guerrilheiro José Genoino, do estilo neo-populista de Marcelo Deda, que, a partir de Aracaju, pode fazer crescer o PT por todo o Nordeste.
Outra inferência que se pode fazer é a de que o fortalecimento do oposicionismo gerará uma reação da base governista, que, ao contrário do que se previa há um ano, deverá permanecer unida, como alternativa mais viável para enfrentar as oposições. Ou seja, a divisão da base governista, com o lançamento de candidaturas próprias pelo PSDB, PFL e PMDB, abrirá grandes chances para as oposições, principalmente se elas caminharem unidas no páreo presidencial. Por quê, então, Jader Barbalho, Jorge Bornhausen e Mário Covas se adiantam e dizem que seus partidos terão candidaturas próprias? Simples: barganha. Cada partido vai lutar para que um de seus quadros entre na composição da chapa, seja na cabeça ou na vice-Presidência.
Do ponto de vista de liderança pessoal, há de se reconhecer a formidável performance do senador Antônio Carlos Magalhães que, na Bahia, fez barba, cabelo e bigode. Esse fato o credenciará a ser o interlocutor mais importante do PFL na mesa das negociações políticas. O presidente Fernando Henrique não foi castigado como se temia. Pode até ter havido um voto de protesto, o troco contra a falta de sensibilidade do governo para com a área social. Mas esse voto ficou bastante diluído e difuso. O eleitor optou por uma política de resultados, mais imediata e próxima a seus interesses cotidianos.
Confirma-se, assim, o voto mais racional e ético que previmos em diversas manifestações ao longo do ano. No mais, é pôr fé na máxima de Bolívar: ‘‘O governo mais perfeito é aquele que produz mais soma de felicidade, maior soma de segurança política e maior soma de segurança social.’’
- GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. E-mail:[email protected]