Oposição sem imaginação - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de janeiro de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
Nicolau Maquiavel, o mais perfeito e atual analista das coisas da política, escreveu no capítulo 17 de sua obra O Príncipe algo que lembra a situação do presidente Fernando Henrique Cardoso nos tormentosos dias que correm: De fato, pode-se dizer dos homens de modo geral, que são ingratos, volúveis, dissimulados; procuram escapar dos perigos e são ávidos de vantagens; se o príncipe os beneficia, estão inteiramente do seu lado; como já observei, oferecem seu próprio sangue, o patrimônio, sua vida e os filhos quando a necessidade é remota; quando ela é iminente, revoltam-se.
Hoje não faltam no Brasil os revoltados, inclusive os que andam a emitir pela imprensa sua crítica implacável contra o presidente, seus palpites infelizes, seus recalques, sua vontade incontrolável de se exibir nas páginas dos jornais, essas vitrines por onde a opinião pública espia as mercadorias do pensamento; mas eram bem poucos há quatro anos, quando estavam ocupados em gozar das delícias das viagens e das compras que a estabilização econômica originada do Plano Real lhes proporcionava. Diga-se de passagem, do plano econômico que mais durou e deu certo no Brasil.
Mas numa economia frágil como a nossa, sempre devastada pela inflação crônica, tangida pela mentalidade especulativa dos particulares e asfixiada pelos miasmas das doenças estatais já por mim várias vezes citadas como o populismo desenfreado, o nacionalismo xenófobo, o clientelismo desvairado e o patrimonialismo corruptor, não era difícil prever que o interregno originado do Plano Real fosse abalado. E isso se deu por conta de uma série de fatores externos tais como a crise asiática e a feroz crise russa.
É verdade que fomos momentaneamente salvos pelo gongo através do acordo feito com o FMI. Mas isto não foi suficiente. Das Alterosas se agigantou o new Tirandentes, governador Itamar Franco, anunciando a ação mais desmoralizadora em termos internacionais: o calote. Então, como se diz na gíria popular, a vaca foi para o brejo na medida em que a desconfiança externa se fez mais densa, começando a saída avassaladora de dólares do País.
Claro que fomos para o brejo, em termos, pois o Plano Real ficou comprometido, parecendo que se avizinham momentos mais difíceis, sobretudo se comparados aos quatro anos anteriores. Contudo, muita coisa dependerá da firmeza do governo em torno de decisões corretas, das votações que se fazem necessárias no Congresso, do discernimento do empresariado e da vontade do povo em não se submeter aos inescrupulosos que inflacionam os preços de bens e serviços com o objetivo de aumentarem desmesuradamente seus lucros pessoais.
Com relação ao governo, felizmente o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, ao defender o câmbio livre e rejeitar o currency board (sistema cambial adotado pela Argentina e por Hong Kong em que a moeda local é trocada pelo dólar com base numa taxa fixa definida em lei) e a centralização do câmbio (que praticamente define a moratória e suas decorrências, ou seja, o corte ao acesso aos mercados externos e aos investimentos diretos estrangeiros) demonstra que em meio à turbulência, o barco do Estado ainda não perdeu o rumo como já profetizam os adeptos do quanto pior melhor.
Porém, nuvens pesadas toldam o futuro do País quando interesses de grupos inconformados com suas derrotas políticas (especialmente o grupo cujo líder sofreu duas derrotas consecutivas infringidas exatamente pelo atual presidente), resolvem apelar para idéias golpistas, como foi o caso do Sr. Tarso Genro, ex-prefeito petista de Porto Alegre, que pediu eleições presidenciais já neste ano de 99, o que equivale a pedir o impeachment de Fernando Henrique, escolhido pelo voto popular em primeiro turno a partir de regras democráticas.
O teor desta idéia é de tal forma irracional, que o próprio Luiz Inácio Lula da Silva a criticou através da imprensa, dizendo: Essa proposta do Tarso é prematura e precipitada. O povo fez uma opção, certa ou errada. Fernando Henrique só tem 27 dias no segundo mandato e, se essa moda pegar, daqui a pouco vão dizer que os governadores eleitos pelo PT devem renunciar também.
A questão, porém, é que Lula está pedindo a cabeça do ministro da Fazenda, Pedro Malan, e defende a tese do seu partido, o PT, da centralização do câmbio. Bate também na velha tecla da restrição das importações para que haja fortalecimento da indústria nacional. Quer dizer, não há novidade. Continua em curso a mesma cantilena que em nenhum lugar do mundo conduziu à prosperidade. É o mesmo nacionalismo xenófobo, a mesma mentalidade estatal que continua a rechear os sonhos de uma oposição sem imaginação, como se a chamada esquerda tivesse sido congelada no tempo a partir da queda do Império Soviético. De fato nada mudou na esquerda brasileira de modo geral, inclusive a cartilha stalinista, que por ser totalitária condena os dissidentes ou à morte ou ao hospício por considerá-los loucos. Essa irracionalidade é de se lamentar neste final de século, e só resta torcer para que ela não prevaleça.
Contudo, não é fácil eliminar a mentalidade caudilhista herdada, propícia aos golpes de Estado como o idealizado por Tarso Genro e outros revolucionários. Para culminar, ainda temos que exorcizar o fantasma de Simón Bolívar, que parece ainda rondar essas paragens latino-americanas a sussurrar: A América Latina é para nós ingovernável. Uma constatação, aliás, que o grande estadista aprendeu na prática, e que o presidente Fernando Henrique começa a assimilar. Será, então, que temos saída? Pode ser que sim, desde que usemos nossa imaginação.


