Oposição palaciana - Jorge Samek
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de novembro de 1998
Jorge Samek 
O Brasil realmente é um país de novidades, principalmente no que tange à sua política. Um exemplo é esta declaração: Neste momento em que as discussões sobre déficits e cortes nos gastos públicos ocupam o cenário nacional, é muito importante que números e informações sejam conhecidos, a fim de permitir a formação de opiniões e critérios ajustados à realidade. Se algum gasto pressionou o déficit público não foi o da saúde e da educação... A CPMF não beneficiou a saúde. O que houve foi desvio de outras fontes. Ou seja, a receita da CPMF foi destinada à saúde, mas foram diminuídas as destinações à saúde decorrentes de contribuições sobre os lucros...
O conteúdo disso não teria nada de inusitado se a declaração não fosse do ministro da Saúde, ex-ministro do Planejamento, o tucano de longa monta José Serra. Nós da oposição lamentamos que ele não tenha dito isso no período eleitoral. Quando a nossa Coligação União do Povo/Muda Brasil fazia a denúncia que o governo FHC não priorizou a área social, o enfadonho programa eleitoral governista mostrava gráficos e números dizendo que a realidade era exatamente outra.
A declaração sugere que a área social não foi prestigiada no Orçamento e aponta que os cortes poderiam recair sobre os ministérios dos Transportes, que teve um crescimento de 142,2%; da Agricultura, de 289%; e da Justiça, com aumento de 76,1%. Os gastos com a Saúde caíram 12,4% no atual governo, enquanto despesas com outras áreas cresceram 22,6%.
Pergunto agora quais seriam os dados fidedignos: o do ministro do governo reeleito, ou do candidato FHC? A tradição política brasileira leva a crer que a primeira tem mais credibilidade. Esta constatação me lembra a obra do grande escritor anglo-indiano George Orwel, em seu livro 1984, que mostrou em ficção de um governo autoritário, que as estatísticas governamentais sempre eram alteradas para sugerir o progresso, a modernidade, o sentimento de que estamos indo sempre em frente. O slogan de FHC, Avança Brasil, segue muito neste caminho. A história se repete enquanto farsa.
Espero que este fato não seja absorvido pela opinião pública como uma mera briga palaciana por mais espaço, mas sim, sirva para analisarmos a essência do governo FHC. Os intelectuais palacianos, no início do mandato de FHC, diziam que o seu governo faria um movimento pendular, que ora se dirigiria para a direita para implantar reformas, ora para a esquerda para abarcar as questões sociais. As declarações de Serra mostram que isto não existiu e que o movimento pendular ficou manco.
A tendência liberal do governo FHC vai se ressaltar neste segundo mandato, bem como a dissidência nas hostes governistas, tentando resgatar algo como um PSDB perdido em meio ao fisiologismo e ao inchaço promovido por sua passagem no governo. Para nós da oposição, ficam reforçadas nossas afirmações contra o governo FHC, como também ganham novo corpo as nossas propostas para mudar os rumos do Brasil. Evidenciou-se que não existe uma economia forte sem que exista um povo saudável, com boa educação, com boa qualidade de vida. Uma democracia política não sobrevive sem uma democracia social. Um país se constrói a partir das oportunidades de melhoria de vida de seus cidadãos, que por sinal, estão na contramão do desemprego e do abandono das políticas sociais, feitas pelo receituário neoliberal.
Espero que Serra continue a reforçar aqueles que sempre lutaram pela intervenção do Estado na área social, abrindo um entendimento com setores que foram tratados como retrógrados, atrasados e conservadores, exatamente por defender os mesmos preceitos que hoje ele defende.
- JORGE SAMEK é vereador e vice-presidente do PT-PR, em Curitiba


