Uma prática frequente dos governantes que assumem o poder é, imediatamente, fazerem críticas ao antecessor, sobretudo quanto aos desmandos e especialmente o endividamento, que, segundo os que chegam, torna problemática a administração. Se é verdade que a grande maioria comete irregularidades e gasta além da conta, também é bastante provável que aquele que entra acabará deixando situação idêntica ao sucessor, significando que, sob esse aspecto, são todos mais ou menos iguais. A história o tem provado. Dar realce à situação, sempre péssima, por parte do governante que acaba de assumir, é uma forma de justificar incapacidades e assim remeter a culpa, pela eventual má administração própria futura, ao que o antecedeu. É um estratégico oportunismo. Acontece sobretudo com os prefeitos, e no mais dos casos os candidatos, quando em campanha, já sabiam do que iam encontrar pela frente. Mesmo assim tudo fizeram para eleger-se e assumir o cargo postulado. Esse comportamento põe dúvida sobre a legitimidade de suas apregoadas intenções. O que se atesta com frequência é que, uma vez eleitos, também eles cometem improbidades e deixam atrás de si histórias de corrupção. Nunca se ouviu um novo prefeito, um novo governador, um novo presidente da República fazer elogio aos que os antecederam, a menos que seja um familiar ou membro de um feudo e isto existe no Brasil, bastando estender o olhar para pontos mais ao topo do mapa territorial. Um relato da situação deve, sim, ser feito ao povo por aquele que assume, mas esse balanço precisa ser claro, ao tempo em que devem ser apresentadas as fórmulas e prazos de como as dívidas serão pagas. Passa-se às vezes uma administração inteira sem que esse relato seja feito, mas o governante fica continuamente falando do legado que recebeu, e assim não realiza obras no mais das vezes por falta de competência, porque muitas delas não precisam de muito dinheiro e sim de boa vontade. Só faz o costumeiro, que anda sozinho, porque é uma roda que gira pela ação do corpo funcional e independe de comando superior. E se esse administrador público pouco faz, também não revela se pagou as dívidas assumidas, e ele próprio acaba deixando outras do mesmo tamanho. Todos, sem exceção, lamentam a escassez de verbas e até casos anunciados de inadimplência, quando assumem, e assim cortam serviços essenciais, mas nunca os gastos supérfluos e as mordomias individuais, para não falar dos casos de corrupção. Para essa veneranda senhora não há falta de atenção e reverência. Porque as tentações são muitas, oriundas do próprio meio e também as externas, aquelas que não têm documentos e não deixam rastros. O presidente Lula não quis falar de denúncia de corrupção do Governo FHC que ''um alto companheiro'' lhe levou dois anos atrás, envolvendo uma instituição governamental. Justificou que não queria tumultuar o início de seu governo e não semear pessimismo. Mas, se na ocasião pode ter agido acertadamente ao não falar, não deveria tê-lo feito agora, porque fora do tempo de validade.

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