Oportunidades perdidas
O jornalista Celso Pinto, diretor de Redação do jornal Valor escreveu um excelente comentário publicado no dia 24 de agosto sobre os problemas do comércio exterior brasileiro na vigência do velho regime cambial que vigorou até janeiro de 1999. Ele analisou um relatório produzido pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) no qual se faz um balanço das dificuldades que aquela política impôs ao setor exportador brasileiro, tendo como resultado uma perda importante de participação no comércio mundial.
Temos uma espécie de fotografia, em corpo inteiro, do processo de destruição dos setores mais dinâmicos de nosso comércio exterior, graças à perversa combinação de três fatores apontados no estudo: juros estratosféricos, aumento da carga fiscal e, principalmente, um câmbio totalmente irrealista. O diagnóstico ajuda a entender as razões pelas quais as exportações de nossos produtos manufaturados não estão crescendo mais rapidamente após a desvalorização cambial.
Desde o início dos anos 70 e pelo menos até a metade dos anos 80 a indústria brasileira aumentou sistematicamente os investimentos direcionados às exportações. A pauta de manufaturados se diversificou significativamente, nossos produtos chegaram a todos os continentes, cresceram as quantidades e os valores exportados até alcançarmos, em 1984/1985, uma participação de 1,4% no total das exportações mundiais.
Mesmo nos anos mais dramáticos da crise do petróleo, quando o comércio mundial encolheu e eram mais difíceis as condições para a obtenção de recursos no mercado financeiro, as exportações brasileiras não deixaram de crescer a taxas superiores às do crescimento do comércio mundial.
Isso significa que tínhamos construído um setor exportador dotado de grande dinamismo e elevada capacidade de enfrentar a competição externa. Onde se apresentasse a oportunidade de negócio, lá estava um exportador brasileiro disputando mais uma fatia do mercado.
De 1985 a nossos dias, as exportações deixaram de ser prioridade na política econômica. Nesse período houve três congelamentos de taxas de câmbio, retirando de nossa indústria e do setor exportador as condições isonômicas mínimas para enfrentar a dura competição no mercado mundial.
O pior de todos os congelamentos, o mais longo, deu-se entre 1994 e 1999, quando o câmbio serviu de âncora ao Plano Real. Deixamos o campo livre aos nossos concorrentes, especialmente aos países de economia emergente do Sudeste Asiático e à recém-convertida ao capitalismo, a China Continental.
Para se ter uma pálida idéia, nos idos de 1985 exportávamos US$ 26 bilhões e os chineses US$ 27 bilhões, praticamente a mesma coisa. Hoje, exportamos US$ 50 bilhões e a China US$ 190 bilhões. Eles cresceram, enquanto nossa participação se reduziu a 0,9% das exportações mundiais. Significa que se apenas acompanhássemos o ritmo de crescimento do comércio mundial estaríamos exportando US$ 35 bilhões a US$ 40 bilhões a mais, por ano.
No seu comentário, Celso Pinto faz referência aos 52 setores de exportação de manufaturados onde o Brasil perdeu competitividade, classificados como de oportunidades perdidas. Aos que se interessam pelos problemas do comércio exterior, é imperdível a leitura do relatório do IEDI.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP, ex-ministro, atual presidente da Comissão de Tributação e Finanças da Câmara Federal
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