Orlando Zaccone, delegado da 52 delegacia de Nova Iguaçu (RJ), implantou, com o auxílio do músico Marcelo Yuka, projetos culturais, assistência médica, odontológica e jurídica na carceragem da delegacia que comanda. Segundo ele, como a situação dos presos em delegacia é muito pior do que no sistema prisional, há um número maior de problemas. Para Zaccone, que esteve em Londrina para participar de um congresso, a assistência aos presos é uma forma de contenção de toda a situação que, por si só, é bastante tensa.

Qual o objetivo?
Reduzir os danos do cárcere. Esse projeto não é de ressocialização, porque essa idéia é bastante questionada na criminologia. Ressocializar é retorná-lo para a sociedade que o produziu. Como somos produto do meio, vamos ficar no zero a zero. A idéia é tentar levar informação para que o preso possa visualizar uma forma de rebeldia diferente do crime. O crime é uma forma de rebeldia contra as regras estabelecidas pelo status quo. Só que na verdade acaba alimentando o sistema. Quando você leva informação, dá ao preso a possibilidade de se manifestar contra os valores estabelecidos, mas de uma forma que possa modificar o mundo para melhor, inclusive sua própria vida.

Por que são importantes essas ações?
Se entendemos que o sistema é seletivo, só encarcera os mais vulneráveis, temos que dar uma contrapartida para essas pessoas. Essa vulnerabilidade pode se dar pela falta de acesso a advogados, condição social, ou pelo tipo de crime que pratica. Se os mecanismos são seletivos, precisamos de políticas de redução de danos, oferecer filmes, bibliotecas, universidades. Não é tratar bandido a pão-de-ló, é oferecer a ele a possibilidade de sair melhor do que entrou.

Como foi a reação dos presos?
No início foi difícil porque desconfiavam muito dos propósitos. Com o tempo e a presença do Marcelo Yuka e de outras pessoas que consegui levar até lá, entenderam que havia ali um movimento em favor deles e passaram a jogar junto. Hoje são colaboradores.

Há outros projetos em andamento?
Estamos fazendo uma reforma para colocar sala de aula para o supletivo de primeiro grau. A delegacia é a única no Rio que tem presos do Comando Vermelho e Terceiro Comando. Eles começaram a participar de um projeto que era único, não tinha esse negócio de comando. Não posso ter uma sala de aula para cada facção. Conversei com eles sobre a possibilidade de termos uma turma de alfabetização com pessoas das duas alas e eles concordaram. Temos também refletido muito na necessidade de profissionalizar o preso. Há ainda o jornal Sol Quadrado, que está no segundo número e conta com a participação deles.

Mas não é perigoso colocar integrantes de facções diferentes no mesmo espaço?
Muitas vezes é o próprio Estado que reforça esse sistema de exclusão de excluídos. No sistema carcerário no Rio o cara chega e os próprios funcionários, pelo endereço do preso, definem se ele é de uma ou outra facção. É o próprio Estado que vai criando os papéis das pessoas, reforçando essas divisões. Duvido que o cara vá se recusar a estudar, ter remissão da pena, porque é desta ou daquela facção.

Essas ações tem dado um resultado?
Quem esteve antes na delegacia e volta agora diz que parece outro lugar. Como estou lá todos os dias, quase não percebo. O diretor das delegacias da Baixada Fluminense, que esteve comigo na carceragem no dia em que assumi a delegacia, voltou recentemente e assistiu a um filme na carceragem. Quando saiu, me disse que não acreditava que era o mesmo lugar. As pessoas dizem que o ambiente está mais favorável, mais tranquilo.

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