Vilões da inflação
Os preços administrados ou monitorados pelo governo foram responsáveis por um terço da inflação acumulada em 2003, segundo resultado de levantamento divulgado esta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Ou seja, de um acumulado de 9,3%, itens como energia elétrica, água e telefone responderam com um porcentual de 3,7%.
Alguns são importantes de serem mencionados, embora reportagens sobre o assunto estejam no noticíário econômico dos jornais. De acordo com o IBGE, o ônibus urbano, com um aumento de 20,95% e impato de 0,97 ponto porcentual; energia elétrica, com aumento de 21,31% e impacto de 0,88 ponto porcentutal, e telefone fixo, com aumento de 19,10% e impacto de 0,57 ponto porcentual, tiveram participação expressiva nesse resultado.
Já os alimentos, normalmente com forte peso no IPCA, contribuiu com 1,78 ponto porcentual da taxa, considerando que o aumento esteve praticamente concentrado no primeiro semestre do ano, em índice de 6,48%. Este fato, segundo os especialistas, estaria relacionado aos reflexos do choque cambial ainda de 2002.
Não há dúvidas sobre a importância da participação do Estado em determinados setores da economia brasileira, assim como se discorda da pouca presença do poder constituído em áreas fundamentais, como a saúde e a educação, nas quais os recursos para o desenvolvimento dos projetos inexistem para os respectivos gestores, mas o mando das ações administrativas está fortemente vinculado. Consequentemente, surgem campanhas estimulando pais e a sociedade em geral a bancarem reformas de salas de aula e compra de livros para as bibliotecas, como se estes já não participassem com a sua cota, pagando direta ou indiretamente inúmeros impostos.
É ainda importante salientar que alguns dos preços administrados ou monitorados pelo governo são de produtos ou serviços que passaram há alguns anos pelo processo de privatização, como é o caso da telefonia e da energia elétrica, mesmo que parcialmente. E especialmente quanto à telefonia, a expectativa nacional era de um desenvolvimento do setor, não na quantidade de empresas, mas na qualidade dos serviços e em seu barateamento.
Porém, pouco mais de cinco anos depois da privatização, o que o usuário dispõe é de um sistema encralacado, que se enrosca na ponta das linhas em algumas das regiões do País, embora em outras funcione adequadamente, e a um custo de serviço de primeiro mundo.
A privatização, ao contrário de abrir as portas da concorrência, loteou o sistema. E a população brasileira, não coincidentemente moradora de um país geograficamente extenso, precisa telefonar, consumir água e energia e andar de ônibus nas médias e grandes cidades, o que custa caro e faz a inflação dar saltos. É provável que o governo, que controla estes preços, saiba disso.

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