Outro dia, conversando com um amigo que também escreve e é observador das peculiaridades do nosso linguajar, nos detivemos num ponto interessante. Assunto comum, nada sério, eis que de repente ele diz: “eu nunca parei pra pensar ...”. Risadas e comentários sobre a observação. De onde tiramos essa frase já consolidada pelo uso?

Em todas as correntes da filosofia, desde os gregos Platão e Aristóteles, vemos o ser humano definido como um ser pensante, característica que o diferencia dos vegetais e de outros animais. Pensar é um processo complexo, já que podemos pensar sobre uma infinidade de assuntos e, ainda, pensar sobre o próprio pensamento. Não é tangível, assim como as emoções, mas tem início no córtex central, possui uma base física, a rede neural.

O ato de pensar não exige uma pausa na atividade em curso. E uma atividade natural e ininterrupta. Estamos em constante movimento corporal, seja falando, andando, correndo ou até dormindo. O cérebro não para. O pensamento, propriamente dito, também é uma forma de ação. Estuda-se a interrupção de pensamento em estados patológicos ou na morte. Parar de pensar, na verdade, não sabemos quando ocorre ou ocorrerá. Há controvérsias, a matéria é discutível.

Obviamente, o que queremos dizer com “nunca parei pra pensar” é que muitas vezes somos exigidos a fazer uma pausa para nos dedicarmos tão somente ao assunto em pauta. Parar todo e qualquer raciocínio para focar na questão presente. Sabemos que a concentração é um processo em que as energias se dirigem a um determinado tema ou objetivo. Tarefa difícil, mas não impossível e hoje temos técnicas para alcançar esse intuito. Direcionar o objetivo apenas para um ponto de interesse, seja para uma discussão ou estudo. Parar para pensar e avaliar nossas opções e posicionamentos, para assumir o curso de nossas vidas e a responsabilidade por nossas escolhas.

Meta mais trabalhosa é a de parar o pensamento, encontrar um estado ideal para exercer apenas a função de não pensar. Técnicas nos ensinam a esvaziar o pensamento de todas as cargas cognitivas que acumulamos, forçosamente, com o passar do tempo. É o que prega a prática milenar da meditação, visando acalmar a mente e aumentar a consciência do momento presente. Essa interrupção do pensamento nos promete benefícios para a saúde mental e física, redução do estresse e da ansiedade, melhora da memória, da atenção e da criatividade.

Parar para pensar, parar de pensar ... Eis uma questão complicada para nossas mentes já tão atribuladas pelo cotidiano. Mas, não é o pensamento – ou a sua limpeza - que determina o nosso curso, a nossa rota? Se o pensamento é o ensaio da ação, segundo Freud, ele determina nossas ações. Assim sendo, não seria mais fácil deixá-lo no piloto automático, enfrentando os desafios? Afinal, dominamos ou somos dominados pelo pensamento, sem nos darmos conta disso? O assunto é interminável . Melhor não parar pra pensar, senão a gente ensandece.

Orides Navarro Gordan, formada em Letras pela UFPR

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