Em “The Good Doctor”, seriado norte-americano que retrata a realidade de um jovem médico autista, demonstrou em seus dois primeiros episódios de sua quarta temporada as condições nos quais profissionais da saúde vem se submetendo para o enfrentamento da pandemia do Covid-19.

Em determinado momento, a médica Claire Browne, interpretada por Antonia Thomas, descobre que os objetos pessoais de pacientes que vieram a óbito e que foram mantidos no hospital em decorrência do vírus, não são apenas pertences. Demonstram histórias interrompidas, sentimentos que se perpetuarão na dor, significados que dinheiro não compra.

Nos fazem relembrar, que cada óbito não é apenas número que irá acrescentar em uma estatística de monitoramento. Um crucifixo, como muito bem retrata o seriado, não é apenas uma demonstração religiosa, é o que restou de mais íntimo entre uma filha e uma mãe que não conseguiu vencer as complicações de algo tão minúsculo.

Neste momento, o país já registra a marca de 200 mil vidas perdidas. São mais de 200 mil histórias que se foram e não puderam se despedir de forma digna. São famílias dilaceradas pela rapidez que um organismo se propaga. Pela forma como nós não nos afetamos ao presenciar leitos cada vez mais lotados e valas sendo abertas diariamente aos montantes.

Como não damos a devida atenção para aqueles que por sorte sobreviveram, mas que irão conviver com as marcas de uma intubação por longos períodos. Neste ano que se iniciou há poucos dias, trouxe com ele uma fresta de esperança para um novo momento. Uma esperança de vacina, de reencontros entre pessoas que permanecem em um distanciamento social. Da possibilidade de abraços e beijos que não foram dados ao longo do ano de 2020. E é claro que todos desejam isso. Todos desejam que este momento de dificuldades vá embora e traga tudo que nos foi separado. Mas vidas não voltam. Não dá para apertar um “voltar” e trazer novamente quem partiu. Este número que já se tornou tão imensurável, continuará crescendo e tornando-se histórias interrompidas, não apenas momentaneamente.

Nataly Cassaniga Resende, acadêmica de Direito da Universidade Positivo Londrina.

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