Criminalidade e indiferença

Trinta e oito assassinatos já aconteceram em Londrina nestes dois meses e meio do ano, doze dos quais de menores. Foram quase duas centenas no ano passado. Em ambos os períodos, um crime a cada dois dias, em média. Afirmar que o número é alarmante tornou-se lugar comum. Indicativos de contenção dessa onda de crimes não existem e isto torna a situação mais preocupante. As autoridades da área discutem projetos de segurança, mas isto vem sendo feito há muito tempo e a situação não se alterou. Nem se sabe até que ponto a questão tem a ver apenas com a organização policial se a criminalidade tem origem nas mazelas sociais, aí incluído o negócio das drogas.

As vítimas são, na quase totalidade, pessoas de classe pobre que habitam bairros periféricos, e entre eles jovens distribuidores de drogas. Formiguinhas, que no mais dos casos atuam em defesa da própria sobrevivência, a serviço de comandos mais altos, que vão se sucedendo em hierarquia até chegar aos gigantes deste rendoso negócio, que figura hoje entre as maiores calamidades humanas. O registro de cada uma dessas mortes violentas, em Londrina, faz assentar o epitáfio: acerto de contas entre parceiros do negócio de drogas. E, por conta disso, ninguém se comove e nem a sociedade questiona.

Este o ponto: como na listagem de vítimas só existem pessoas da mais baixa camada social, e ademais sob o estigma de mortes envolvendo o tráfico, não há cobranças. Uma dolorosa verdade é que vozes se ouvem afirmando, com indiferença, que vítimas e criminosos são marginais. A priori, um julgamento e a proclamação da sentença de morte. As autoridades já perceberam isso e passam também a não se preocupar muito, embora seja oportuno não darem aparência de descaso. De todos esses assassinatos, pouco se ouviu dizer sobre identificação dos culpados. São tantos os casos que já não há lembrança deles, a não ser que formam uma volumosa estatística.

A comunidade, em todos os seus níveis, aí incluída a pobre e igualmente insegura, teme e cobra providências sobre o que tem pleno direito mas não se comove e não se manifesta com algum posicionamento contra essa chaga social representada pela onda de assassinatos. Se a pobreza e a ausência de opções para muitos que não seja a tarefa de distribuir a droga são males que angustiam os cidadãos mais sensíveis e conscientes, os assassinatos são o desfecho dessa corrente nefasta e eles não dignificam uma sociedade, mas ao contrário a denigrem. Melhor do que apenas clamar por segurança será a sociedade organizar-se e encarar o problema com visão mais humanitária, de forma a proporcionar ocupação digna a esses jovens entregues ao negócio ilícito das drogas e sujeitos a morrer violentamente.

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